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Términos doem, mas a gente se reconstrói

Lembro exatamente do dia em que resolveu sair de casa. Pela primeira vez em meses, não estávamos gritando um com o outro, não tinham palavras afiadas sendo trocadas na tentativa de nos ferirmos, nem aquela tensão nos músculos causados pela raiva. Dessa vez era diferente. Eu sabia. Ele sabia.

Em geral, sempre nos entendíamos. Alguém se desculpava, pedíamos uma pizza, abríamos um vinho e dormíamos juntos no tapete da sala. Da nossa sala. Não sei por quanto tempo foi assim, mas parecia suficiente. Às vezes, um porta retrato ou um vaso voava. Não era saudável, mas sempre fazíamos as pazes. Acho que o caos nos excitava. Mas naquele dia não teve caos.

“Eu preciso ir” você disse entre lágrimas. Eu também chorava. Queria te pedir pra ficar, mas ao mesmo tempo queria me libertar de nós. Nosso amor sufocava. Hoje, fico feliz que não tenha voltado atrás. Acho que eu não teria tido essa coragem. “Talvez um dia, sei lá”. Mas sabíamos que não aconteceria. Aquele era o fim. O nosso fim.

Términos doem, mesmo quando são necessários. Entendi isso quando passei a pular o café da manhã, porque acordar sem o cheiro do seu café me causava dor no estômago. Entendi isso quando comecei a evitar nossos restaurantes favoritos, nossa pizzaria de sempre e o vinho barato que nos deixava apaixonados de novo. Entendi isso quando, depois de meses, encontrei uma foto sua e chorei.

Quando você foi embora, uma parte do meu dia ficou vazia. Não tinha mais nossos passeios, nossas conversas, nossos filmes, nossa caminhada após o trabalho. E tudo que eu tinha pra substituir esse tempo, era eu mesma. Foi ai que eu também entendi que términos doem, mas a gente se reconstrói.

Conheci outros restaurantes, outras pizzarias, outros vinhos. Comecei a frequentar a academia, mudei os móveis e as cores das paredes. Comprei uma máquina de café. Cortei o cabelo. E tingi também. Fiquei sócia do clube que você achava caro demais e desde então vivo bronzeada. Renovei meu guarda-roupa. E me apaixonei de novo. Por mim mesma. Meu amor curou o nosso fim. Consertou meu coração quebrado. E me ensinou que o único término que mata, é o da nossa vida.

Obrigada por ter feito parte de mim e obrigada por ter deixado de fazer.
Términos doem, mas a gente se reconstrói Términos doem, mas a gente se reconstrói Reviewed by Gabriela Freitas on 21:41 Rating: 5

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.

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