Nova Perspectiva

9 de novembro de 2018

Sempre haverá um pouco dele em você

É como se a sua série favorita tivesse acabado na metade, antes da hora, e você não conseguisse parar de imaginar o que é que aconteceria com os personagens se existisse outra temporada. Será que ficariam juntos? Será que ela descobriria a verdade? Alguém morreria? Não dá pra saber. E isso é horrível. Ninguém te avisou que seria assim. Ninguém te preparou pra uma interrupção tão repentina. Ninguém te disse que você se decepcionaria. Mas a vida é exatamente desse jeito: inesperada. E o amor também.

Vocês fizeram muitas promessas enquanto estavam juntos. Traçaram planos e metas e sonhos. Criaram histórias. Discutiram o futuro. Dois filhos, uma casa perto do lago pra passar os finais de semana e morar quando a velhice chegasse, um cachorro, um gato e talvez um peixe. Viajar pelo mundo, casar, construir uma família. Mas nada disso vai acontecer. A série de vocês acabou na metade e não tem mais espaço pra continuação. Ponto final, sem direito a reticências. Sem sentido, sem explicação. É o tipo de história que acaba, mas não termina. Nunca. “E se a gente tivesse tentado mais?”, “e se aquela briga não tivesse acontecido?”, “e se a gente tivesse tido mais paciência?”, “e se...” só que não importa mais. E, agora, saber disso dói. Arde. Queima. Sangra. Parece que não vai passar, aliviar, curar. Que nunca mais cê vai voltar a ser o que era antes disso acontecer. E tem certa verdade nisso tudo.

Você nunca mais vai ser quem era antes dele. Ele nunca mais vai ser quem era antes de você. E os dois seguirão carregando um pedaço do outro dentro de si. E isso já é o suficiente pra que tudo seja diferente daqui pra frente. As coisas que viveram, o que não conseguiram viver, os dias bons, as brigas, as declarações de amor, os gritos revestidos de raiva. Cada parte dessa história, cada página desse capítulo, transformaram vocês. Cê aprendeu um pouco com o jeito turrão que ele tinha pra chegar onde queria, ele aprendeu um pouco com a sua maneira reflexiva de pensar na vida. Cê ficou um pouco mais insistente. Ele, um pouco menos. Você continua amando sertanejo, mas, agora, também tem uma playlist de rock clássico no celular. Ele não critica mais as músicas do Jorge e Mateus. Se quer saber, até chorou ouvindo Paredes e pensando em você. É isso que acontece quando uma história de amor chega ao fim.

A dor vai passar, sim. As lágrimas que caem cada vez que você lembra do jeito que ele tinha pra te fazer rir de tudo, um dia, se transformarão em sorrisos. O coração apertado, pesado, vai, aos poucos, se livrando da angústia, da saudade, do luto. Tempo ao tempo, as memórias antigas vão perdendo espaço pra novas memórias. É tudo muito recente, mas daqui a pouco vai deixar de ser. O amor vai continuar aí, porque amor, meu bem, não morre nunca. Só que não será mais esse amor. Não será mais o grande amor da sua vida. Não será tão intenso e tão forte e tão inesquecível ao ponto de você achar que não terá outra pessoa. Ou outras. Será um amor guardado na caixinha das lembranças. Um amor com altos e baixos. Único, como qualquer outro. Mas que ficou pra trás. E há certa beleza em compreender isso. Há certo amadurecimento em aceitar o fim. E respeitá-lo.

Claro que vai incomodar seu peito quando souber que ele está com outra pessoa. Incomodará o dele, também, quando esbarrar nas suas fotos com outro alguém. Às vezes, você vai encontrar com o sorriso dele em um cara qualquer na rua. E ele vai sentir seu cheiro no pescoço de uma mulher diferente. O que eu quero dizer com isso tudo é que, nessa hora, vocês lembrarão que por um tempo, estarem juntos bastou pra que fossem felizes. E que foram. Mas que em algum momento deixaram de ser. Vocês não abandonaram o barco porque o que sentiam não era de verdade, abandonaram porque não adiantava mais remarem juntos. Dali pra frente, precisavam se separar pois o caminho já não era mais o mesmo. E tá tudo bem. As coisas são assim. A vida continua. E lá na frente passa a fazer sentido. Não dava pra ser de outro jeito. Ainda bem.

O amor acaba, mas continua em nós. Sempre haverá um pouco dele em você. Sempre haverá um pouco de você nele. E, mesmo assim, sempre terá espaço pra novos amores existirem e outras pessoas viverem em vocês. O fim inesperado de uma série não pode ser substituído por outra diferente, mas com tantas opções disponíveis, a gente descobre que sempre existirão novos personagens pra gente se apaixonar. E que não tem nada de errado nisso.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.