Nova Perspectiva

9 de maio de 2018

Eu juro que não queria amar você

Desculpe começar essa carta desse jeito moreno. Quer dizer, desculpe por começar mais uma carta depois de ter prometido tantas vezes que eu não voltaria a escrever sobre nós dois. Desculpe, também, por não conseguir seguir em frente mesmo tendo apagado todas as nossas fotos e as nossas mensagens que eu insistia em reler todas as noites. E por continuar acreditando que você ainda vai voltar e a gente ainda vai dar um jeito na bagunça que era a nossa história. Desculpe por não conseguir desistir e continuar batendo de frente com o mundo igual uma criança birrenta que faz escândalo no chão do supermercado até conseguir o que quer. Talvez eu seja isso mesmo, uma menina mimada que não consegue abrir mão mesmo depois de já ter perdido. Desculpe por continuar aqui, por todo esse discurso e por todo esse drama. Desculpe, mas eu juro que não queria amar você.

Deve ser alguma coisa no teu gosto que não me deixa esquecer às vezes em que juramos resistir a tudo. Deve ser alguma coisa no jeito que você me olhava que fazia eu acreditar que a gente era mais forte que o mundo. Deve ser as promessas que a gente fez e que eu não consigo esquecer, ou os nossos planos de viajar só com uma mochila pra todos os cantos do mundo, ou os filhos que a gente falava em ter, a casa que a gente queria comprar, os sonhos que a gente dividia e que passaram a ser só meus. Deve ser essa saudade idiota de tudo o que a gente não viveu que não sai de dentro de mim. Deve ser seu cheiro que continua impregnado em um dos meus travesseiros. E o teu corpo que deixa um vazio imenso do meu lado na cama. Deve ser porque eu não aprendi a desapegar mesmo depois de ter lido diversos livros que falavam sobre desapego e superação. Deve ser porque eu não sei fingir que não sinto mais nada quando cada poro do meu corpo transpira o seu nome. Deve ser exagero, você sempre disse que eu era intensa demais, não é moreno? Mas a verdade é que eu não queria nada disso.

Eu não queria continuar olhando as suas redes sociais, nem perguntando sobre você para os nossos amigos em comum enquanto eles me olham com pena e dizem que as coisas estão boas por aí  (e que deveriam ficar por aqui). Eu não queria continuar a ir aos seus lugares favoritos só pra, quem sabe, conseguir te ver, mas quando vejo já estou no seu bar, no seu restaurante, na sua balada. Eu não queria lembrar das covinhas que a sua bochecha faz cada vez que você sorri, ou de como seus olhos ficam pequenininhos quando você se concentrava em alguma coisa. Eu não queria ter cada traço do teu rosto tatuado na minha memória, nem o seu toque na minha pele e seu beijo na minha boca. Eu não queria perder minhas noites pensando em você, tentando descobrir se você já seguiu em frente ou se também sente a minha falta. Eu não queria saber que você não pensa mais em nós.

Eu não queria lembrar dos dias em que dormi agarrada nos seus braços, nem das tardes que passamos procurando desenhos nas nuvens ou das risadas sem motivo que a gente dava. Eu não queria viver te procurando nesses outros caras que apareceram na minha vida, nem ficar buscando por sinais de nós dois em outros relacionamentos. Eu não queria querer que fosse você cada vez que eu beijo outra pessoa, mas eu quero. Eu não queria sentir falta do seu toque quando outro me toca, nem lembrar do seu nome em cada maldita conversa sobre o amor. Eu não queria chorar depois de uma noite incrível só porque você não estava lá, entende moreno? Eu não queria ouvir as nossas músicas e sentir meu coração apertar do jeito que ele aperta. Eu não queria saber que pra você as coisas foram bem mais fáceis, que a vida já voltou a ter cor e que já não lembra mais do barulho da minha risada.

Eu não queria ainda ter esperanças de que mais cedo ou mais tarde você vai se arrepender, que vai voltar atrás e que dirá que sente a minha falta, a nossa falta. Eu não queria ainda acreditar em nós, porque eu sei que isso é loucura. Eu não queria estar assistindo a minha vida passar em câmera lenta, porque não fui eu que decidi isso. Foi você que escolheu sair, foi você que decidiu cair fora de nós, e eu não queria ter continuado aqui, estática como se ainda tivéssemos alguma chance de ser nós dois de novo, porque eu sei que não temos mais. Eu não queria. Juro. Mas tudo que eu sei é que continuo te querendo cada vez mais. E já não sei o que fazer com isso.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.