Nova Perspectiva

28 de janeiro de 2018

Algo sempre fica quando a gente se vai

A gente vai levando a vida como dá. Vai lutando aqui, tentando mais um pouco ali, desistindo às vezes também. A gente vai indo como dá: chorando, sorrindo, acreditando, desistindo. No fundo, o que nós queremos mesmo é encontrar algum lugar. Um lugar para estar quando a tempestade apertar ou para descansar o coração insistente em ainda bater. Ou até mesmo um lugar para abrir os olhos e enxergar além do horizonte, além daquilo que a maioria vê. O que a gente quer é ir: descompassadamente, rápido ou devagar. Não importa, temos ânsia em chegar.

E é então que, diante das nossas viradas nas mais variadas esquinas da vida, nos deparamos com a certeza de que a gente nunca vai inteiro. É que um pedaço nosso sempre fica lá. Algo sempre fica quando a gente vai. E, mesmo sendo difícil, não podemos parar ou nos dar ao luxo de não se despedaçar pelo menos um pouquinho a cada nova despedida. Não somos de ferro, não é? A gente sente a dor perfurar o coração e os arrepios chegarem à alma. A gente percebe que falta algo. A gente sempre percebe quando algo está faltando, quando não estamos mais inteiros ou quando nos perdemos em meio aos diversos caminhos e, agora, sentimos o quão difícil é a nova etapa de se encontrar mais uma vez.

E aí as datas no calendário deixam de ser tão importantes e se tornam apenas manchas. Manchas de um passado distante que nos levará a virar novas esquinas, novos encontros e, quem sabe, nós poderemos nos montar mais uma vez. Temos que estar inteiros novamente, certo? Seja para nos perder mais a frente ou para que possamos parar de tentar nos encontrar a cada nova calçada. Acontece que algo sempre volta quando a gente retorna também. E então a gente vira uma brincadeira de pique-pega no labirinto das passagens do tempo.

Parece cilada do destino. Pedaginha do passado ou vingança do presente que mantém um caso sério com o futuro. Não sei, só sei que parecemos eternos personagens dessas estações da vida. Às vezes tão deprimentes quanto o previsível final dos filmes de romance. Somos eternos aprendizes do efeito ioiô do tempo. Feitos de papel outras vezes, por isso rasgamos tão fácil. Com meros passos descompassados, existem momentos em que somos como os personagens ruins em busca desesperada de roteiros. Ora, não dá pra se entregar, então, se não há roteiro agora, baby, improvise.

Se algo ficar, foi por não caber na mala no momento. Talvez um dia volte a caber. Talvez um dia não precisaremos mais ir. Enquanto isso, vire na próxima esquina.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.