Nova Perspectiva

30 de julho de 2017

O que te faz ser alguém?


Daqui uns dias voltam as minhas aulas. Oitavo semestre. Ano que vem acaba. Já vou estar pronta pra "ser alguém na vida".  Não é o que dizem? "Estude para ser alguém na vida".

O problema não é estudar, se formar, ter um diploma e uma profissão honrada, pelo contrário, amém por isso. O problema é o pensamento de que é isso, ou qualquer outro senso comum medíocre,  que nos faz ser alguém, quando, na verdade, não é. 


Existe gente que não tem nem o ensino fundamental, mas tem muito mais a ensinar que muito portador de diploma pendurado e emoldurado. Existe gente que nunca teve uma formação, mas teve uma ideia e, hoje, contrata gente formada como empregado. Existe gente que não teve dinheiro pra cursar o que sonhava, mas, carrega valores que muito doutor nem sonha. Existe. 

E é aí que eu me pergunto: No que é que a gente tem baseado o que dita o nosso valor?

Já li notícias de adolescentes que passaram anos estudando mais de 12 horas por dia, dormindo mal, comendo mal, vivendo mal, pra conseguir passar em uma prova com questões que até o Wikipédia ficaria em dúvida. Já vi gente criando úlcera porque teve que repetir uma matéria, não passou no exame da ordem, ou não conseguiu um cargo melhor no emprego. O que finalmente significaria o que é acreditado e imposto: "Parabéns, agora você é alguém na vida!" Quem disse?

A gente vê gente que se deu bem e é rica e bem sucedida aos 20 e poucos anos, e a gente mal conseguiu comprar uma bicicleta, não sabe o que fazer pra se livrar das espinhas e não tem a mínima ideia se realmente quer ser pro resto da vida a profissão que escolheu aos plenos 17. Mas quando a gente conseguir, a gente vai ser alguém, não vai? Quem disse?

Abrimos as redes sociais e somos bombardeados com fotos da it girl do momento. De barriga negativa, bronzeado em dia e cabelo impecável. A gente se cobra, se culpa e se mata, pra tentar ficar um pouco parecida com a última foto que ela postou no Instagram, porque, aí, a gente vai ser alguém, não vai?

Quando a gente tiver dinheiro, a gente vai ser, né não? Ou então, quando arrumar um namorado (a), afinal, todo mundo a sua volta tem, não é? Quando conseguir alguém pra postar foto com legenda do Caio Fernando Abreu e aturar sua carência latente por não saber ser feliz sozinho (a),  você vai ser alguém, não vai?

Depois que você provar pra todas as pessoas que não acreditam em você, que você consegue, você vai se sentir satisfeito, não é? Quando conseguir pegar o microfone na sua igreja e mostrar que sabe falar bem, você vai se sentir reconhecido, certo? Ou, então, quando conseguir mais curtidas nas frases que você posta, talvez. Quando ficar famoso e ter gente pagando pra tirar uma foto do teu lado, você vai ter certeza que chegou lá, não vai?
Não. Não vai.  

Talvez alguma dessas hipóteses tenha doído em você. E, eu quero que você saiba que eu não te condeno. A qualquer descuido, eu também me coloco vulneravelmente na mesma posição. Eu já estive em várias delas. Algumas, ainda tentam me prender dia ou outro, eu confesso. E eu não tenho vergonha de dizer isso. Não dá pra ter vergonha de ser humano. Não dá pra querer fingir que a gente é intocável. Não dá. Mas, também, não dá pra ser assim o tempo todo. A gente precisa se libertar. A verdade liberta! E, a verdade, é que gente tem pagado um preço alto demais pra tentar alcançar algo que é, literalmente, de graça.

O que faz a gente ser alguém nunca vem de fora, sempre, vem de dentro. Nunca vem daqui, sempre, vem do alto. É essência. 

Identidade não se baseia no que você faz, ou no que conquista. Não tem a ver com nada que qualquer pessoa desse mundo acha de você. Não tem a ver com um diploma, uma aparência, um status, uma condição financeira ou social. Identidade não é algo que você está, é algo que você é. E isso inclui os dias ruins também.

A real identidade de um produto a gente só entende ouvindo o fabricador. Você só descobre quem realmente é, quando se volta para quem te criou. Você só entende a criatura, quando conhece o criador. E, isso, é de graça. 

Ao contrário do que o seu pai terreno talvez lhe cobre, o seu Pai lá de cima não espera que você conquiste nada para ser alguém. Ao contrário de como as pessoas pensam, Deus não define o seu valor pelo que você tem. Ao contrário do que você mesmo pensa de si, você não precisa ganhar nada para "chegar lá": Você só precisa perder. Perder a pose. Perder o medo. Perder o orgulho. Você precisar perder-se, e encontrar-se Nele. 

Nem o nível mais alto alcançado nessa terra satisfará nossa lacuna de sabermos quem somos, porque só encontraremos essas respostas aos pés da cruz. E é só ali que encontraremos sentido, porque não faremos para ser, mas faremos porque somos. 

O próprio Jesus, antes de iniciar seu ministério nesse mundo, precisou ouvir a verdade de quem Ele era, liberada do Pai sobre Ele: "Este é o meu filho amado, em quem me comprazo!" (Mt 3:17)

Depois de ouvir isso, Ele pôde ser chamado de falso profeta. De impostor. De "apenas mais um". De fracasso. Não importava mais. Ele sabia quem Ele era no Pai, e essa verdade era forte e grande o suficiente para anular todas as mentiras lançadas sobre Ele. 

Eu já deixei muita palavra mal proferida definir como eu me sentia a respeito de mim mesma, por não ter um filtro da verdade revelada no meu coração. Mas, hoje, mesmo quando estou fraca e vulnerável, eu sempre sei pra que definição voltar. 

Elogiaram minha escrita, meu cabelo cresceu e está mais bonito e, esses dias, eu mesma ouvi a frase de reflexão com que o texto iniciou: "Parabéns, mais um ano e está formada, pronta para ser alguém na vida!"

Eu respeitei, e agradeci...
Só que eu respondi que já sou.  

De quem ainda tenta conquistar tudo, mas, sabe que já teve o que mais importa conquistado na cruz,
Ghiovana Christini. 

5 comentários:

  1. Pouco se ver hoje textos assim, claros, simples e autênticos. Que Deus te abençoe e continue te usando.

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  2. E Deus falou comigo através de seu texto, tudo que eu necessitava pra acalmar o coraçãozinho angustiado em ser alguém.Mais agr sei qq já sou. Obrigada Lindona'

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.