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2 de julho de 2017

O baterista


Fui num show de rock numa cidade vizinha há alguns meses atrás. O baterista da banda era um cara de cabelo grande e barba por fazer, do jeito que eu gosto. Slouchy, camisa jeans, um tênis alaranjado e um jeito estiloso de andar. Me encantei assim que ele entrou. E eu nem sou disso. Quer dizer, eu nunca acreditei em nada à primeira vista, até ver ele. Algumas pessoas entram na nossa vida pra quebrar paradigmas e estabelecer novos. Ele, com certeza, foi assim pra mim.

Por mais que eu tentasse me concentrar, o único show que eu assisti naquela noite foi ele balançando a cabeça, enquanto manuseava aquelas baquetas com maestria. Tinha vocalista na banda? Guitarrista? Eu nem vi. É que eu só tinha olhos pro espetáculo de homem atrás daquela bateria.

Ele nem me viu. Os olhos estavam tapados pelo cabelo, ou concentração. Eu estava na frente do palco, esperando ao menos uma troca de olhar. Por vezes, juro que ele olhou pra mim. Mas não me viu. Ele é míope. Hoje, eu sei.

"Eu vou casar com esse cara. Ele só não sabe disso ainda."
E daí que ele nem faz ideia que eu existo? O abusado do baterista tocou meu coração sem baqueta nem nada. Vê se pode.

"Nós somos de São Paulo", o vocalista anunciou. Olha, tinha um vocalista! E agora eu sabia de onde vinha o dono do meu olhar naquela noite (e do meu coração, nos últimos dois anos). E daí que São Paulo fica a 990 km daqui? O amor não sabe contar. E não contou.

Acabou o show, mas o meu baterista continuava lá, dando o show dele, tirando fotos com todas as meninas que, encantadas como eu, se aproximavam sorridentes. Mas, eu não fui. Não, eu não. Eu não queria ser só mais uma delas. Eu nunca aceitei ser só mais uma. E, desde aquela noite, eu decidi não ser só mais uma na vida dele. Eu não queria uma foto, eu queria ele.

Antes de sair pela porta, olhei pra trás e dei uma última olhada no meu baterista, arrumando o gorro vermelho na cabeça, conversando com alguém, sem nem ideia de estar sendo mirado. Lindo, sem nem querer parecer. Como sempre é, sem perceber. Eu fui embora sem saber se um dia o veria de novo e, se visse, quanto tempo demoraria. Mas, tudo bem, o amor não sabe contar, e não contou.

Ele ficou sabendo da minha existência alguns meses depois. E, de repente, o baterista que não saia da minha cabeça, não saia da tela do meu celular.

- Prazer, Ghiovana. Seu nome tem H de metido, igual o meu.
-  Por que não falou comigo naquela noite? A gente podia estar casado, com três filhos, na Austrália.
- A gente ainda pode.
-  Eu nem sequer te vi. 
- Um dia a gente se vê.
- Eu tenho o melhor abraço do mundo.
-  Eu sei que deve ter.
(E tem mesmo).

Eu me apaixonei pelo meu baterista todos os dias, durante meses. E cada momento com ele, mesmo longe, tocava um tom diferente do meu coração.

Ele dizia que não nasceu pra distâncias, mas, o amor não sabe contar. Eu tinha medo dele me achar muito nova, mas, o amor não sabe contar. A gente se estranhou um monte de vezes. E se deu umas vinte segundas chances, porque o amor não sabe contar. Ainda bem.

O meu baterista, hoje, é meu. E faz "ba dum ts" no meu coração sempre que diz que me ama. Ele anda lindo. E sorri lindo. E existe lindo. E ainda fica uma graça com aquele tênis alaranjado que, por acaso - ou não -, foi o que ele usou quando saiu desfilando de mãos dadas comigo pela primeira vez na Avenida Paulista. Enquanto eu sorria de orelha a orelha, agradecendo a Deus em pensamento por sempre dar um show no improvável.
Meu baterista e eu somos muito diferentes. Ele joga vídeo game e eu gosto de ler. Ele tem sono leve e eu não acordo nem se ele tocar bateria. Ele fala bastante e eu prefiro escrever. Ele dá boa noite e eu sempre dou bom dia. Temos nossos espinhos, mas, quem diria, encaixou. Que ironia. O amor não sabe contar, e não contou. Mas eu amo contar sobre ele, e o nosso pequeno milagre.

Quando corações se encontram, a lógica não cabe:
Eu quero casar com esse cara. E, agora, ele sabe.

Ba dum, ts.
Sua,
Branquinha.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.