Nova Perspectiva

25 de julho de 2017

Lembranças de quem passou e ficou

Leia ouvindo 'me espera'.

Ela resolveu finalizar a quarentena e cutucar velhas feridas. Algumas cicatrizes são tão bonitas, que até parecem tatuagem... Parou na última e ficou olhando, deixando o riso tingir sua íris. Sorria boba. Ela emanava uma felicidade tímida, mas palpável. Faz três dias que decidiu parar de fingir e esconder os sentimentos, e não está mais ligando se isso a fizer parecer levemente idiota – pessoas idiotas são felizes.


Sorte a dela.

Revirou a memória, sorrindo ainda mais. Não precisou tirar a poeira, pois não permitia que criasse pó. Ela não dava muito ibope, mas não conseguia ignorar todo o dia, o dia todo. Vira e mexe uma lembrancinha aparecia, sem machucar nem ferir ninguém. Mas ainda haviam algumas cicatrizes tatuadas. Ainda haviam vários detalhes fortemente ignorados e deixados de lado. Porque machucam, mesmo sendo tão leves e bonitos. Não se engane: boas memórias ferem tanto quanto as ruins — se não mais.

Uma lágrima boba se formou no cantinho do olho. Ela se encarou no espelho, rindo de si mesma. Cutucou as lembranças que ignorava, lacrimejando um tanto mais. Procurou pela música proibida. Quarenta dias que não a escutava. Julgou ser hora de deixar sentir, de deixar doer, de deixar reviver. Play. A melodia suave invadiu cada pedacinho dela. Ela fechou os olhos, permitindo absorver. A letra. As lembranças. As melhores memórias. Da pálpebra fechada, a chuva escorria tímida, deixando um gosto de sal nos lábios – e mais memórias.

Que sorte a nossa.

Sorriu. Encarou-se no espelho, plena. Me mandou um alô, dizendo ter pensado em nós. Falou das feridas bonitas, esparramou a saudade no meu colo e me narrou outro tanto de recordações, anseios e desejos. Mordeu a língua, escondeu-se tímida e se entregou, todinha.

Que sorte a minha.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.