Nova Perspectiva

18 de julho de 2017

As lembranças saíram pelos olhos


A melodia invadiu suavemente o interior do carro, trazendo um arrepio bom. As lembranças escaparam do baú e condensaram nos olhos, deixando claro que tudo aquilo que foi bom ainda perdura e é parte minha. Lembro que fugi do tom em meio a um soluço. E solucei bem no refrão. Repudiei-me um pouco por perder a graça da música que tocava, mas o estribilho se repetiu tantas e incontáveis vezes, que inspirei aliviada ao absorver cada letrinha que penetrava em mim.

Teve uma época que jurei nunca mais, nunquinha, voltar a lembrar de você, mas tem tanto traço teu nas nuances da rotina, que se torna impossível não tornar parte minha. Assim como cantou Renato Russo — e outros tantos! — é quase sem querer que você se torna lembrança. Acostumei-me tanto a esbarrar nas coisas que são tão tuas, que quase não mais percebo. Entende moço, eu mudei depois de tudo, sabe? E cada dia mudo mais. Vejo isso nitidamente quando esbarro comigo em frente ao espelho. Ninguém sabe, nem ninguém precisa saber, mas muito de mim hoje só é, porque fomos. Viramos páginas, mas a história fica ali, esquecida n'algum canto, até que venham detalhes que nos remetem à essas memórias — hoje tão gostosas.

Eu aprendi a desapegar desses detalhes. torná-los quase imperceptíveis. A maioria deles. Mas aí vem o acaso e me presenteia com uma música que não costuma tocar na minha playlist. Aí vem o riso bobo no meio das lágrimas, os olhos brilhando de sal e aquela ruguinha no canto, que mostra como eu mudei. E sei que mudei. E só eu sei. E é assim que basta.

É rosa nunca visto, é cor do imprevisto
É flor de estação.
[...]

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.