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6 de junho de 2017

Calejando


E foi leve como da outra vez?


— Foi. Foi leve e lindo, mas esmagou a saudade. Senti meu coração em frangalhos e miúdo. Tinha falta demais dentro do peito, que quase escapou um pouquinho dela pelos olhos. Eu engoli a saudade, tanto quanto pude, porque não queria deixar que ela fugisse. Era tão minha, tão eu, que quis me dilacerar um pouquinho. Te confesso que fui um pouco sadomasoquista, remoendo lembranças antigas de uma época que eu era tudo — menos minha.



E foi com grande pesar que constatei que a saudade que sentia era um tanto dele, um tanto de mim. Te contar essas coisas deixa meus olhos marejados outra vez e um riso fino escapando da face. É que dói um pouquinho, mas a sensação de felicidade é infinitamente maior. Lembra que você me contou que tudo na vida tem um propósito e que as pessoas têm missões? Então, a missão dele foi me fazer enxergar um mundo de outra perspectiva e me mostrar que eu era muito mais do que eu me pintava. Ele sacudiu tanto minha zona de conforto, que quando tomei ciência de mim, já não dava mais certo para a gente. Aí eu segui um caminho seguro e confortável e ele seguiu para o outro lado. 


Não deu nem tempo da gente se ver se afastando, sabe? Ninguém ficou parado olhando as costas daquele que ia embora, cutucando as memórias que ainda eram frescas. Ninguém derramou uma lágrima sequer. Simplesmente nos demos um abraço demorado e partimos, uma para cada lado. E isso, hoje, me parece tão errado. Porque deveria ter ficado, sabe? Eu deveria ter olhado para trás uma vez e ele deveria ter olhado também, só para firmar a certeza de que nosso tempo tinha sido bom e não vão. É tolo pensar assim, porque sei que sou como sou porque tive influência dele na minha vida. E sei que gosto do que gosto, que como o que como, que danço como danço por causa dele. Tem tanto do que ficou. Eu sou tanto do que ficou. Do que vivemos, do que curtimos, do que dançamos, do que transamos, do que discutimos. Aprendi muito e tinha um punhado mais para. Aí eu sonho e o sonho é leve e lindo, sem malícia, sem desejos. Só um querer bem imenso e uma saudade maior ainda. Foi, foi leve como da outra vez. Mas, dessa vez, dilacerou saudade.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.