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29 de junho de 2017

A sensação de que tudo ficou em suspenso

Desde o dia em que você escolheu partir eu comecei a refazer as cenas. se tornou cotidiano, antes do café, depois de calçar os sapatos, enquanto lia um livro antes de dormir, fico tentando lembrar em que momento eu não fui o suficiente para você querer ficar. peguei no sono inúmeras vezes no meio de uma lembrança. você simplesmente escolheu partir. e eu fiquei. e em minha companhia um silêncio gritante, um caderninho cheio de duvidas anotado e o plano de uma viagem para o México nas férias. como se faltassem figurinhas para completar o álbum de fotografias, como se tivéssemos deixado tudo em suspenso, incompleto. ainda consigo sentir a ponta gelada do seu nariz quando encostava para me dar um beijo de boa noite ou o desconforto visível quando eu falava empolgada sobre uma banda que você nunca tinha ouvido falar.


Por esse tempo todo tenho me questionado e refeito as cenas, pergunto á mim mesma o que poderia ter ou não feito, você não imagina o quanto isso é angustiante, o quanto é sufocante imaginar que eu deixei você partir. enquanto minha razão tenta me convencer de que eu não poderia ter feito nada, que não podemos fazer permanecer quem nunca planejou ficar, um bloquinho cheio de duvidas me acompanha por onde vou e sussurra em meu ouvido que eu o que eu poderia ter feito, entre um gole e outro de café, enquanto tento me concentrar na leitura do jornal, minha mente vai longe e me diz que se fizesse mais enquanto você estava aqui poderia ter mudado os rumos da história.

Dei a você amor e mais amor, tudo que tinha dentro de mim, na tentativa de fazer você ficar, mas não ficou e eu fiquei vazia por todo esse tempo, procurando na multidão alguém que pudesse me encher de novo. mas hoje, nessa manhã cinza, conforme leio o jornal e coloco mais café em minha xícara, percebo o quão absurda é a ideia de que temos controle sobre algo e que podemos impedir que os sentimentos que moram no interior de outra pessoa possam ir embora. é absurdo. me sinto patética só por pensar que estive esse tempo todo gastando minha energia, refazendo cenas e julgando o meu amor como insuficiente. não era, não foi.

Eu dei amor de sobra, amor que ainda sobra. ele foi suficiente e minha voz foi alta o bastante para você ouvir quando eu disse "fica", você me ouviu e notou meu amor, mas preferiu tapar os ouvidos e fingir que não era pra você. e agora eu posso tomar meu café tranquila, calçar os sapatos, me concentrar na leitura do capitulo seis do meu livro, ouvir a musica nova da minha segunda banda preferida antes de dormir, posso voltar a respirar sem que a angustia me diga que eu poderia ter mudado a sua escolha. talvez um pouco antes de fechar os olhos e pegar no sono um lembrete oportuno me diga que a coisa mais certa que nos aconteceu foi termos dado errado. espero dar ouvidos dessa vez.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.