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28 de maio de 2017

Sobre folhas e flores


- Por que será as folhas caem? - você me perguntou, mantendo seu olhar fixo na árvore acima de nós, que derramava-se em formas amarelas e avermelhadas, no mesmo tom do pôr do sol, que fazia um espetáculo aos nossos corpos, ali estirados sobre a grama, naquele fim de tarde que dispensava frase alguma.


- Ouvi dizer que é pela falta de clorofila. Ou por causa de um tal de ácido abscísico que mata as células do pecíolo. - Eu respondi fazendo você rir e balançar a cabeça. Quase pude imaginar o que pensava, enquanto pousava sua mão quente sobre a minha, ligeiramente fria, e brincava com meus dedos.

Pra você parecia tão simples. Tudo, sempre. Mesmo perguntando o porquê, na verdade você nem se importava com a resposta. Eu sim. A tempestade que há em mim nunca aceitou a simplicidade da sua aceitação em ver apenas o copo d'água. A criatura insana que sou, sempre foi do tipo que defende que "porque sim" não é resposta. Pra você, era porque sim. Quando eu insistia, você ria. E era tão lindo quando você ria, que eu nem queria mais saber o motivo. Eu só queria ser teu riso. Aqueles involuntários, doces, de canto de boca. Aquela sílaba que você não pronunciava direito e eu achava lindo, aquele relevo esquisito da sua testa.

Você dizia que eu era exagerada. E eu sou mesmo. Não aceito a simplicidade do sentimento, Não aceito pergunta sem resposta. Não aceito resposta que não encaixa. Eu tinha que te comparar com cada partícula do mundo, pra ver se você era grande assim só em mim. Pra fazer da tua grandeza só minha. Pra pousar tua mão quente sobre o meu coração que brinca de ser gélido, até você aparecer. Pro meu sorriso automático sair espontâneo. Pra eu parar de questionar os porquês do que não tem porquê.

Tenho uma ou duas daquelas folhas que caíram sobre nós naquele pôr do sol, quando eu afetava sua simplicidade com minha vastidão. Quando eu ainda conhecia apenas a teoria das coisas. Mas aí o tempo passou e eu tive que virar gente grande que aprende na prática. Aí eu tive que entender a resposta sem ter você pra explicar. Aí eu tive que aceitar que "porque sim", nem sempre as coisas exigem muita explicação.

Formulei minha resposta pra sua pergunta feita há tanto tempo, uma madrugada dessas, sentada na minha varanda, ouvindo o tipo de música que você odeia, vestindo aquele pijama velho que você cansou de ver: As folhas caem porque sim. Porque o inverno vem chegando e é preciso que a árvore, sozinha, economize toda sua energia para aquecer-se. As folhas caem porque as árvores não podem mais alimentá-las, se quiserem sobreviver ao inverno.

Entendi ligeiramente, sem esforços, que você e eu fomos folhas de outono. Caídas, por um amor que não pode mais nos alimentar. Um amor congelado no tempo, naquele seu beijo automático de despedida, naquela minha expressão facial que fazia você rir. No seu rabisco artístico na última folha do meu caderno de poesia. O nosso amor precisou descartar nós dois pra sobreviver. Pra continuar sendo bonito, pra florescer de novo, depois.

Há muitos como nós pelo chão. Há muitas folhas amareladas caídas que todo mundo acha bonito, mas não entende. Tem muita árvore também, tendo que deixar muito de si pra sobreviver. Quando pensei nisso, eu ri. Lembrando de você dizendo que talvez fosse melhor pra mim se você me deixasse ir. Como uma árvore que deixa de fornecer clorofila pra folhar desprender. Eu não escolhi cair, assim como você não quis me soltar por gosto. A gente só tinha que deixar a estação acontecer, com todas as perdas e dores bonitas que ela traz. Porque sim.



Hoje eu sou árvore, também. Tive que deixar muitas folhas irem. Muitas cartas com seu nome amassadas e jogadas fora. Muitas fotos espalhadas pelo chão. Muito amor vivo que absorvia tudo que tenho e sou. Eu tive que tentar te matar dentro de mim pra sobreviver. Porque já era inverno e eu não conseguia me aquecer sozinha. Porque a vida exigiu muito de mim e eu não tinha energia pra ficar firme e segurar um sentimento pendente. Tive que te deixar, também.

A gente faz tanto papel nessa vida. E eu comparo tanto cada coisa com o mundo. E troco tanto os personagens, que acabo nem tendo mais certeza do que digo. Sorte que a primavera vem logo depois do inverno, e floresce. Espero te ver florescer, também. Bonito, vistoso, como essas rosas que a gente tanto admira. Espero que suporte seus espinhos com graça, e que me faça sorrir, assim, só de ver.

Porque infelizmente, nem tudo muda com as estações. Por mais que a gente queira colher algumas flores, guardar em casa, no meio do livro, perto do peito, atrás da orelha. Em nossas mãos elas murcham. Certas coisas - ouvi dizer que as mais bonitas - podem ser sentidas, mas não tocadas. Vistas, mas não colhidas. Amadas, mas não obtidas. Te fiz assim, como essas coisas bonitas. Nosso amor só sobreviveu porque nos deixou ir.

Te encontro em algum jardim, por aí, sorrindo, de longe, fazendo seu espetáculo longe das minhas mãos. Na vida nem tudo tem porquê. Nem começo, nem fim. Algumas coisas tem de ser, sem explicação...

Porque sim.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.