Nova Perspectiva

9 de fevereiro de 2017

Depois de você o mundo ainda é mundo

O relógio despertou as 7:00 em ponto, eu coloquei no modo soneca por mais dez minutinhos, eu precisava daqueles dez minutinhos. O segundo toque trouxe com ele a realidade, era quinta-feira, faltava menos de uma hora para eu estar no trabalho, o que havia acontecido antes disso já não importava mais. Levantei, passei o café de sempre, joguei metade da garrafa fora, preparei café para dois, porém só havia eu. Bebi o café morno a caminho do trabalho, envolvi um cachecol azul no pescoço, sempre tive a sensação de que cachecóis nos protegem do mundo, como um escudo, eu sempre pensei numas coisas bizarras assim.
Imaginei que se eu tivesse contado isso pra você, a minha teoria dos cachecóis, você teria rido e de algum jeito que só você sabia teria tornado a minha teoria maravilhosa em algo pequeno e bobo.

Dei a volta no quarteirão, a banca de jornal estava com a porta meio aberto, o moço que vende cachorro quente já estava a postos para mais um dia, a senhora que passeia com seu cãozinho franzino e briguento no parque toda terça e quinta estava provavelmente na terceira volta, eu estava atrasada, por isso sabia. A lanchonete onde almoço as quartas com a Luísa estava aberta, porém ontem eu não almocei lá, nem nos últimos três meses e isso me fez pensar que posso chamar a Luísa para almoçar na próxima quarta, caso ela ainda queira.

Os jornais foram impressos, o café estava sendo servido, as crianças estavam a caminho da escola com suas lancheiras e sorrisos banguelas. A vida tinha continuado.

Eu acreditava que se um você decidisse ir embora o mundo sairia da orbita, giraria em outra direção, eu imaginava que tudo mudaria de lugar e eu jamais iria conseguir encontrar o caminho para qualquer direção. Mas não, está tudo em seu devido lugar, as pessoas continuam seguindo seus afazeres, e apesar de estar a oito minutos atrasada, eu também segui meu afazer do dia.

O meu mundo não parou, parecia que isso iria acontecer, mas quando abri os olhos de manhã, após levar um soco no estômago por toda aquela ansiedade e medo do que viria a seguir, eu percebi que a minha vida não girava em torno de você, nem de ninguém e que nunca vai girar. Que eu posso continuar fazendo isso sozinha mesmo, que eu posso aprender a fazer uma quantidade menor de café, almoçar nas quartas com minha amiga, acordar mais cedo e ir dar uma volta no parque e tentar conhecer melhor a senhora e o cão rabugento, comer um hot dog a caminho do trabalho, limpar o catchup no cachecol, lavar quando chegar em casa, eu percebi que posso continuar vivendo sem você.

O despertador vai tocar amanhã de novo, pretendo ir com o cachecol rosa claro com flores, ele me dá um ar de parisiense, vou comprar  jornal caso a banca esteja aberta, vou usar sapatos mais confortáveis, vou sorrir para a moça que parece estar com o coração partido assim como eu, vou continuar vivendo.

A vida continua as pessoas não foram embora, a terra não saiu do lugar, não mudei de planeta, nem sequer de apartamento.

Depois de você o mundo continua o mesmo. Ainda bem. 

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