Nova Perspectiva

23 de novembro de 2016

Um dia não vai mais ser você

Talvez ainda demore um pouco moreno, mas numa dessas manhãs eu vou acordar e o vazio que você deixou ao meu lado não vai mais me alfinetar como um punhal ameaçando encravar no meu peito a qualquer momento. Quando esse dia chegar, eu não vou me importar com o espaço que sobra na cama porque meu corpo é pequeno demais pra esse maldito colchão king size que você insistiu em comprar e nem me lembrar de quando eu me esparramava nos seus braços só pra você me fazer um cafuné. Eu sei que quando eu menos esperar vou levantar, dobrar os lençóis e você não estará presente no ar que eu inspiro pronto pra infectar o meu pulmão. E é por isso que eu ainda não desisti de mim.

Numa dessas manhãs, o cheiro do café não me causara estranhos dejavus que me devolvem pro dia que você partiu (e também me partiu em mil pedaços ínfimos e invisíveis). Eu não vou me lembrar do jeito que você me abraçava por trás enquanto eu fritava dois pães com manteiga e nem do arrepio que aquela sua fungada no meu pescoço causava ao meu corpo. Não vou lembrar de que a gente fazia amor na mesa da sala sem se importa se isso iria nos atrasar pro trabalho. Eu não vou lembrar do gosto do seu beijo moreno, e nem sentir minha boca se contorcer de saudade da sua. Um dia eu não vou te amar mais e cada parte minha vai respirar aliviava como se eu tivesse me curado de um tumor letal que consumia cada órgão e me transformava num fantasma vivo se arrastando pelas ruas e pelos becos sem vontade de viver.

Numa dessas datas aleatórias do calendário eu não vou mais reler as nossas conversas e nem ficar indo atrás das suas redes sociais pra saber como é que cê está. Não vou mais passar as noites em claro me perguntando se você está em alguma festa ou, pior ainda, deitado ao lado de alguém e se embriagando de um perfume que não é o meu. E quando alguém falar de algo que me remeta a você, nada dentro de mim vai se revirar de saudade. Eu vou conseguir terminar as minhas séries favoritas sem pensar se você também já as terminou e voltarei a ouvir minhas músicas sem me importar se elas também são as suas preferidas. Um dia eu vou parar de chorar no banheiro das baladas e de te mandar mensagens patéticas e de cismar que é você no ponto de ônibus porque a gente nem faz o mesmo caminho.

Sabe moreno, em algum momento eu vou esquecer a data do nosso primeiro beijo e qual era a cor da sua camiseta no dia que você me pediu em namoro. Vou abrir mão das nossas lembranças pra vagar espaço pra coisas novas entrarem. Um dia eu vou conhecer outra pessoa e ela vai me fazer entender que por mais que eu te amasse, não era você. Eu não vou mais sentir esse gosto amargo que entala na minha garganta cada vez que eu lembro de você dizendo que precisa ir embora porque não tinha mais motivo pra ficar comigo. Eu não vou mais me sentir pequena por não ter sido o seu motivo. E vou ser o motivo de outra pessoa. E nenhuma dor vai latejar em mim, porque ele vai me cuidar e me proteger e eu vou voltar a gargalhar, mas não vai ser pras suas piadas. Um dia, eu sei, você vai ser só um pedaço da minha história e não a história que eu queria ter vivido.

Um dia não vai mais ser você a abrir a porta do carro preu entrar, nem quem vai receber o meu primeiro bom dia ou me despir de corpo e alma no terraço do meu apartamento em uma noite de sexta-feira. Um dia eu vou me aninhar em outros braços e me encontrar em outros olhos e sentir meu peito inflar por alguém que não terá o seu nome. E eu espero que nesse dia você não se arrependa moreno, porque vai ser tarde demais e já não haverá mais espaço pra você voltar e me bagunçar de novo. Um dia, eu não vou querer te receber e nem ouvir sua voz e nem saber como é que tá sua vida. Porque essa é a parte boa do tempo, ainda que ele não cure dor alguma, ele passa, e coisas novas chegam junto dele pra gente entender que nada vai embora de nós se não houver algo melhor nos esperando.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.