Nova Perspectiva

26 de novembro de 2016

Monólogo sem fala x

Levanto de sobressalto, olho ao redor te procurando com certa esperança de te encontrar mexendo nos armários da cozinha atrás dos chocolates que eu escondo de mim mesma ou ajeitando os discos que vivem bagunçados na estante da sala sala, mas foi só um sonho e eu continuo sozinha. Não é nem meia noite e eu já quero chorar. É possível morrer de amor e continuar vivendo?

Vago pelo apartamento como uma assombração. Uma carcaça crua, oca. É possível ouvir um eco dentro de mim e ele vocifera seu nome. Eu não vou conseguir voltar a dormir, eu sei, e mais uma madrugada vai se arrastar enquanto eu tento me convencer de que vai passar, toda essa dor que me sacode inteira, vai passar. Faço um café amargo na intensão de amargar também, mas o que sobe do meu estômago é um gosto pútrido, de decomposição. Cada órgão do meu corpo apodrece. Eu, que nunca usei droga, tenho certeza de que nesse instante sinto o mesmo que um viciado em heroína durante uma crise de abstinência.

Eu imploro deitada no tapete do corredor pra que pelo amor de Deus alguém tire esse tumor que se alastra pelo meu corpo em uma metastase imáginaria com seu nome. Eu quero me curar, quero te esquecer, mas como se tudo me lembra você? Cada canto de casa, as xícaras, os móveis, as paredes. Tudo me leva ao seu sorriso de canto, ao seu olhar perdido, as suas mãos que me tateavam como um cego lendo um livro. Ninguém nunca vai me ler tão bem quanto você me lia. Sair também não ajuda. Os amigos também são seus, a padaria também é a sua preferida, e o japonês e a pizza e o cinema e o parque e qualquer outro lugar da cidade ainda me faz sentir seu cheiro.

E já nem sei por quanto tempo ainda terei lágrimas. Por quanto tempo eu ainda vou conseguir chorar porque tocou a nossa música no bar ou porque o nosso filme favorito vai passar na televisão ou porque achei uma carta que você enviou a sei lá quantos meses enfiada no fundo de uma gaveta. E eu já nem sei por quanto tempo ainda vou sobreviver se eu ainda continuar te enxergando em cada coisa, em cada instante. Porque me dói o barulho da pipoca estourando se você não tá aqui pra me fazer queimá-las enquanto te beijo e te tenho na mesa de jantar, e me dói esperar o ônibus na volta do trabalho sem tua mão apertando forte a minha e a acordar as seis da manhã sem o barulho do café da manhã já sendo feito porque eu sempre me atraso mais do que você.

Porque me dói e eu não sei o que fazer com tanta dor. E eu tenho vontade de enfiar o dedo na garganta e vomitar do jeito que eu vomitava quando a gente bebiba duas garrafas de vinho e dançávamos embrigados pela calçada aos olhos da lua e das estrelas e dos desavisados que sorriam da cena na sacada dos apartamentos, mas, merda, até isso me lembra você! Tudo ainda tá vivo, pulsando pelas minhas veias e artérias, pela corrente elétrica de casa, pelos postes na rua, pelas fotografias espalhadas no quarto e pelo o seu moletom que você esqueceu no armário. Tudo ainda tá vivo, mas o nosso amor você matou e eu me torno patética tentando ressuscitá-lo sozinha.

Eu preciso nos enterrar, mas enquanto eu me convenço a te colocar pra fora, pergunto onde é que você pode estar agora, às duas da manhã de uma sexta-feira e volto a chorar com a ideia de que talvez você esteja sorrindo pra outra mulher e eu nem dou conta de quantas horas já passou e eu permaneço aqui com os olhos arregalados encarando o teto atrás de algum remédio que alivia esse sofrimento que me vira do avesso. Já tentei de tudo, de analgesico a faixa preta. Calmante, dipirona, novalgina. Nada adianta.

Eles dizem que vai passar, que eu preciso ter paciência. É aquele eterno clichê de que o tempo cura tudo, não importa o tamanho da ferida. Outro dia eu li um poema que dizia mais ou menos assim: "hoje meu professor me disse que cada célula do nosso corpo todo é destruída e substituída a cada 7 anos. como é reconfortante saber que um dia terei um corpo que você não terá tocado". Desde então eu só espero pelo momento em que você não vai mais viver em mim. Já é de manhã e os pássaros cantando me arrancam mais algumas lágrimas que até já caem sem que eu faça esforço. É a natureza me lembrando você.

Quantos dias ainda faltam pra cada célula minha não ser mais sua?

*poema traduzido de brett e. jenkins

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.