Nova Perspectiva

18 de novembro de 2016

Desde quando você se foi

Ei,clique aqui para ouvir uma musiquinha da boa enquanto lê o texto. <3

Eu bati o olho no calendário hoje pela manhã e levei um soco na boca do estômago, eu que sou péssima em contas, numa equação rápida constatei que hoje faz 252 dias que você decidiu partir. Eu não achei que já fizesse tanto tempo assim, não parece que foi ontem, mas juro que parecia que tinha você por aqui até algumas semanas atrás. Sentei no banco do ônibus, abri o calendário no celular, contei, faz exatos 252 dias que eu disse meu ultimo adeus para você, o ultimo, dentre tantos que havia dito e você nunca levava a sério. Até que eu decidi me levar a sério só para variar e dizer o ultimo adeus. 

Depois daquele adeus não houve recaídas, não te encontrei pelas ruas da cidade, não te vi por acaso na fila do cinema, você simplesmente desapareceu, surgiu do nada, fez uma bagunça e seguiu. Durante esses 252 dias eu passei por todas as fases que alguém que termina um namoro longo deve passar. Banhos longos, enquanto a água caia nas costas e eu pensava em uma maneira de voltar no tempo e não ter te conhecido, mas isso não é possível, panelas de brigadeiro, filmes estúpidos ensinando a seguir em frente, conhecer outros caras, beijar outras bocas, sentir outros perfumes, me desintoxicar de você, ficar mais de três noites seguidas sem ao menos me lembrar de você antes de dormir, não me importar se você já está namorando, se mudou de cidade, ou teve um filho, chorar de saudade, rasgar fotos, esquecer que você existia. Até a manhã que acordo e seu nome vêm à cabeça, eu percebo o bocado de tempo que faz desde a ultima conversa, desde a decisão tomada, desde o ultimo abraço. 

Eu percebo que não me arrependo de nenhuma dessas fases, porque elas foram necessárias para eu poder voltar a viver minha vida sem você. Eu vivi por 20 anos num mundo em que você não existia, aprendi a viver num mundo em que só você existia, esqueci quem era, esqueci dos meus sonhos, esqueci da minha essência, me entreguei o quanto tinha aqui dentro para alguém que ria toda vez que eu falava que aquele era o ultimo adeus. Hoje faz 252 dias, e você não veio atrás, minhas amigas tentavam me iludir dizendo: “ele virá atrás de você ainda essa semana, é obvio que ele vai ligar a gente só dá valor quando perde, quando ele perceber que te perdeu vai te querer de volta”, mas espera que raio de amor é esse que tem que perder pra dar valor? 

Eu não quero que alguém me perca pra saber que eu era importante na vida dela, isso não é dar valor, isso é desespero por estar perdendo sem nem ao menos querer o que está de fato saindo das suas mãos. Você nunca veio. Você nunca virá. E hoje 252 dias depois, eu vejo o quanto aquele adeus foi necessário, eu vejo que se eu permanecesse numa tentativa frustrada de fazer dar certo, iria diminuir a cada dia desses 252, até ficar tão encolhida, tão pequena que caberia no bolso da sua jaqueta jeans, eu me diminui para caber na sua vida, quando você na verdade nem me queria de tamanho nenhum. 

Hoje é o dia histórico, é o dia que eu posso falar que eu passei as piores fases depois que você foi embora, eu comi muito brigadeiro, chorei horrores, boicotei muitos possíveis relacionamentos por acreditar que você voltaria em breve, eu realmente acreditei nas minhas amigas quando elas disseram que você daria valor quando perdesse. Mas sabe por que você nunca vai me dar valor? Porque só damos valor ao que estimamos, só podemos calcular o valor de algo quando sabemos de fato tudo sobre aquilo, sobre aquela joia, sobre aquele alguém, e você nunca soube de fato quem eu era. Talvez você nunca saiba a mulher que teve nas mãos, você nunca saiba o que perdeu, porque você nunca soube o tamanho do meu valor e como era sortudo por eu querer estar em sua vida. Mas eu sei o meu valor e também sei o seu e você não vale a pena, nunca valeu. 

Então, hoje, 252 dias depois, há quilômetros de distancia, ou talvez há poucos metros, não sei onde você está, com quem está, nem tão pouco o que fez nesse tempo todo, mas hoje, eu posso dizer, eu me curei de você e toda dor que você causou, a cada dia novo que amanhecia, a cada noite que chegava, você saia mais um pouquinho de mim, até que 252 dias depois, eu estou aqui, sentada no banco do ônibus, escrevendo isso tudo num pedaço de papel que achei na bolsa, passou por um breve momento pela minha cabeça te mandar por correio, mas eu cheguei no meu ponto pra descer, e cheguei ao ponto de entender que mesmo que você lesse e relesse, jamais entenderia, então levantei, desci as escadas, amassei o papel e atirei no lixo, junto com todo o resquício de amor que ainda poderia existir.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.