Nova Perspectiva

20 de novembro de 2016

De grão em grão o amor enche o papo


Minha avó ama moedas. Ela é fascinada. Não pode ver uma moedinha de cinco centavos dando sopa na bancada da cozinha, que é dela. A gente, de casa, ri, e, às vezes, se espanta em ver como ela fica radiante, com qualquer troquinho que a gente traz pra ela guardar no cofrinho que mantém como um tesouro. 

Esses dias ela jogou tudo em cima da cama e contou. Tinha mais de R$ 200,00. Caramba, quase me deu vontade de juntar moeda também. Mas, mais do que entender que moeda também é dinheiro, eu entendi algo clichê, mas, que muitas vezes, na prática, nos esquecemos: pequenas coisas tem grande valor e, quando acumuladas, trazem riqueza. Aí, como escritora do mundo da lua e romântica incorrigível que sou, eu pensei no amor. 

A verdade é que o amor é uma coisa grande, feito de coisas pequenas.É tesouro que a gente conquista de centavo em centavo. São as moedinhas que quase ninguém dá valor, mas que quem cultiva, sabe que vale muito.

É uma mensagem inesperada que é capaz de mudar o dia do outro. É um bilhetinho do lado do prato na hora do almoço. É o beijo na mão enquanto dirige. É acordar e perceber que o outro estava te olhando dormir. É ligar só pra dizer que tá com saudade. É o grão em grão. 

Esses dias eu estava na casa dos meus tios e presenciei algo assim. Ela, cansada do trabalho, chegou em casa e se jogou no sofá da sala. Era um dia frio, e ao aproximar-se pra lhe dar um beijo, meu tio notou seus pés gelados. Em alguns minutos, pude vê-lo indo até o quarto e voltando com um par de meias, e, logo em seguida, colocando-as nos pés da sua esposa. Ela não pediu. Ele não precisava fazer aquilo. Mas ele o fez. E eu vi. Era amor depositado no cofrinho do cotidiano. 

Ninguém espera um buquê de flores todos os dias. Mas, um abraço sem motivo e um "eu te amo" no meio da tarde já é mais do que suficiente pra mudar um humor.  Ninguém tem a utopia de viver de jantares românticos toda sexta à noite, mas, um chocolate que a gente lembra de comprar quando vai no mercado, porque sabe que o outro gosta, já tem um grande poder de abrir sorrisos. A gente não precisa o tempo todo largar tudo que gosta e faz, pra viver pelo outro, mas, é um e-mail que você deixa pra responder depois, e larga tudo por um momento, pra assistir um filme abraçado ou gastar minutos olhando nos olhos de quem você ama, que diz: "ei, eu te amo, e você merece o meu tempo e atenção."  

Qual foi a última vez que você parou tudo, pra amar alguém? Qual foi a última vez que trocou as críticas por um elogio?  Mulher, qual foi a última vez que você disse ao seu namorado, ou marido, que você o admira, ou valorizou algo que ele conseguiu desempenhar no trabalho, que pra ele era super importante? Homem, qual foi a última vez que você percebeu que a sua mulher cortou o cabelo, aprendeu algo novo, ou quão gostoso é o cheiro do perfume dela? 

Sempre que eu caminho com o meu namorado na rua, ele me coloca pro lado de "dentro" da calçada. E só isso, às vezes, já é o suficiente pra me lembrar do porquê eu o escolhi.

O maior prédio do mundo, foi construído tijolinho por tijolinho. O maior castelo de cartas já feito, também começou só com uma casinha de duas. Tem uma frase que diz que ninguém tropeça em montanha, só em pedrinhas. E é aí que eu entendo que, algo pequeno pode fazer muita diferença, mas, a sua ausência, também. Você pode gastar horas tentando montar um quebra cabeça, mas, se faltar uma pequena peça, que seja, ele já não vai encaixar. 

Em tempos onde somos instruídos a "pensar grande", eu defendo que, em certas coisas, precisamos voltar nossa atenção pro "pequeno". Evoluímos tanto, que, às vezes, o que nos resta, é regredir. Resgatar a essência. Reaprender o valor do simples... Eu tenho aprendido.

Ninguém decide que quer terminar um relacionamento ou se divorciar da noite pra dia. Ninguém que ama alguém na sexta, deixa de amar na segunda. É gradual. A cada vez que algo pequeno é negligenciado. A cada moedinha que a gente deixa de depositar no cofrinho e, quando vê, está falido. Saldo negativo. Game over. Ninguém se preocupou em administrar. 

Não sabemos explicar por que nos apaixonamos por alguém. Não é simplesmente status, beleza, riqueza ou uma fala culta. É o jeitinho que o outro sorri quando é constrangido. É o jeito engraçado e falho na tentativa de falar uma palavra difícil. É a forma que mexe no cabelo e segura na nossa mão. São detalhes. Apaixonar-se é um resultado de pequenas coisas. Manter a paixão viva, também. 

Eu acho incrível aquelas declarações e surpresas gigantes dotadas de romantismo que a gente vê de vez em quando na TV, nos programas de domingo. Mas, a verdade é que isso é caviar. É coisa chique que a gente come vez ou outra. Eu aprendi que o amor, pra sobreviver, precisa mesmo é do arroz e feijão de cada dia. Não deixe quem você ama passar fome. O amor segue a regra da boa alimentação: 

Ingerir porções pequenas, mas de 3h em 3h. 
É assim que a gente enche a barriga...
(E o coração). 

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.