Nova Perspectiva

12 de novembro de 2016

A tempestade passou

Você foi embora. Sem mais nem menos. Um dia eu cheguei do trabalho e você não tava mais aqui. Abri os seus armários e só encontrei um espaço imenso revestido de solidão. Suas prateleiras na sala e no banheiro ficaram vazias. Você levou sua coleção de filmes clássicos, nossa caixa de chocolates belgas e aquele vinho que eu comprei no último inverno. Não ficou nada pra trás. Até a foto do último natal foi com você. E eu chorei igual uma criança perdida dos pais.

Eu passei a voltar mais tarde e a sair mais cedo, arranjei compromissos, reuniões, jantares e encontros que eu não queria ir, mas eu precisava ficar longe porque ficou insuportável encarar o silêncio da casa sem a sua presença. Eu ligava as televisões e o rádio e até colocava algumas músicas no computador, mas nada preenchia a ausência da sua voz. Bebi todas as garrafas de vodka que ficaram na adega. Algumas numa única noite. E vomitei agarrada à privada sem ter ninguém pra segurar o meu cabelo. Passei a usar preto, em sinal de luto, quando me perguntavam o porquê, eu dizia que você tinha assassinado o nosso amor.

Não houve explicações e eu me afundei nas incógnitas que beiravam o nosso fim. Será que cê conheceu alguém melhor? Cansou? Descobriu que tinha uma doença em estado terminal e fugiu? Nada parecia fazer sentido. Eu te esperei voltar, passei algumas semanas com os olhos fixos na porta, até me dar conta de que eu precisava mudar a fechadura. Confesso que me senti um pouco culpada em fazer isso, como se eu tivesse te traindo, até que eu me toquei que você já tinha até trocado de telefone. Percebi isso meses mais tardes, quando um outro homem atendeu e disse que não tinha ninguém com o seu nome.

Criei desculpas pra continuar te procurando. Fui atrás das suas redes sociais, tentei descobrir onde é que você tava morando e te procurei até no seu trabalho, mas fiquei sabendo que cê pediu demissão um tempo depois de abandonar a nossa história. Você apagou o seu passado e eu não conseguia entender o porquê. Era verão, eu lembro, mas chovia como se fosse agosto. E eu sofria como se tivesse morrendo. Passei madrugadas inteiras olhando pro teto e tentando achar naquelas rachaduras a razão pra você ter rachado a gente. Depois eu descobri que você tava com outra pessoa e desabei de vez.

Não tem nada pior do que não ser mais suficiente pra quem é tudo pra você. Eu soube que você tava feliz e quis ficar feliz com isso, mas como é que eu podia sorrir se a tua felicidade foi montada em cima da minha dor? Tive pesadelos tantas noites que eu até perdi a conta de quantas foram. Neles você ria de mim. Fui vivendo, mais por obrigação do que por vontade. Eu levantava todos os dias com o primeiro alarme, mesmo sempre tendo sido tão preguiçosa, escovava os dentes, passava o café e colocava a sua xícara na mesa. Foi esse o jeito que eu achei pra não voltar pra cama no segundo seguinte.

A gente sempre acha que não vai aguentar, mas sobrevive. O tempo foi passando e eu fui deixando de te procurar. Fui promovida, entrei em outra faculdade e comecei a correr no parque. Peguei um cachorro na rua, depois dois gatos. Terminei as nossas séries e parei de fumar. Comprei roupas novas e coloquei do seu lado no guarda-roupa. Comecei uma coleção de selos. Eu sempre amei cartas. E parei de comer chocolate. Deixei o cabelo crescer, cortei franjinha e voltei a dormir direito. Comprei xícaras novas, sem pares. E decidi viajar pelo país.

Voltei depois de dois meses, um pouco mais loira, um pouco mais bronzeada. Comecei a sair, revi velhos amigos e todos eles passaram a elogiar a minha melhora. Troquei de telefone, e de casa. Conheci outra pessoa. E voltei a sorrir. Numa tarde eu te encontrei. Nada em mim balançou quando a gente se viu. Você me olhou meio arrependido, se aproximou devagar, fez algum comentário sobre o passado e depois disse que eu tava linda, ignorei a primeira parte e, antes de ir, te respondi: "Obrigada, é bom saber que não fui que perdi alguém aqui". A tempestade passou.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.