Nova Perspectiva

16 de outubro de 2016

Vai ficar tudo bem, eu sei

É sexta-feira, entro no banheiro da casa de shows aonde vim passar a noite e me deparo com uma moça, de aproximadamente 22 anos, boa aparência, alcoolizada, chorando, sentada no chão. Sorrio sem graça, como quem levanta a sobrancelha pra dar um oi, e gesticulo: “Tá tudo bem?” Ela me olha, perplexa, faz sinal negativo com a cabeça enquanto soluça e diz: “Eu só queria amar menos.” — Tá, entendi.

Eu sei, menina, que te mandaram vir pra “balada” pra aliviar esse sofrimento, pra conhecer gente nova e dançar até doer o pé — Quem sabe assim desvia a dor do coração, né? — Sei que o escuro da pista de dança parece ser mais sugestivo do que o escuro do seu quarto vazio, e que derramar vodka na roupa, enquanto você tenta achar um espaço pra caminhar perto do palco, é mais aceitável do que derramar lágrimas no travesseiro.

Sei que aquele cara não cansa de te xavecar. Que aquele outro, da sua faculdade, está um gato. Sei que os seus amigos estão super animados com o show – que você não queria estragar –, por isso você saiu da pista pra vir ao banheiro, por sentir a sua razão balançar mais do que o seu salto, quando tocou aquela música que te faz lembrar dele.

Não precisa se justificar. Eu sei que você não costuma beber tanto assim e ficar estatelada no chão do banheiro público (se costumasse também, está no seu direito). Sei que você sente vergonha por não fazer a mínima ideia de como se levantar daí e que você está preocupada com essa cara cheia de rímel borrado, que faz você ter menos coragem ainda de voltar pra pista — com aquele monte de gente” linda” — , enquanto você está se sentindo a pior pessoa do mundo.

E o seu celular? Quer que eu ligue pra alguém vir te buscar ou você o deixou na bolsa da sua amiga pra não correr o risco de ligar bêbada pra ele? …Tá, eu já imaginava. Posso ligar do meu se você lembrar o número de alguém, se você quiser, ou melhor, se você aceitar qualquer coisa agora que não seja ele.

Não adianta eu te dizer que ele vai voltar ou que algum príncipe encantado vai surgir na sua frente quando você sair por essa porta e te fazer esquecer todas essas coisas que te magoam. Não vai, não. E, mesmo que aparecesse um Deus grego na sua vida neste momento, você não iria nem perceber, porque você ainda está presa à outra pessoa. O cara mais lindo desse lugar ainda é feio perto de todos os defeitos daquele que você ama (que, às vezes, também é lindo, por fora, por dentro).

Mas, olha só pra você. Com esse brilho no olhar e todo esse amor no coração, pode ofuscar qualquer escuridão, até mesmo essa aí de dentro. Lava esse rosto, tira esse salto, sai descalça ou descabelada mesmo. Sai do jeito que quiser, ou então nem sai, fica aí, só sai de dentro desse seu eu que você desconhece.

Tá doendo, mas deixa doer, e doer muito, de todas as formas, até não ter mais dor que te machuque. Até você achar que vai ter que pedir arrego pra vida e, no fim das contas, perceber que continua inteira. Parece clichê, mas vai passar, sabe? — Não sabe? — Eu sei.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.