Nova Perspectiva

13 de outubro de 2016

Nossa estação


Ela olhou o céu naquela noite, com olhar manso, sem mudar a expressão suave que irradiava a sua face. Após um breve suspiro, pronunciou em um sussurro quase inaudível, observando-o: "Eu estou aqui." 

"... E relembro aquele momento que tanto tentei moldar em minha mente inúmeras vezes, mas que foi tão especial quanto o que minha imaginação tentava projetar. Foi tudo tão rápido, que sinto minha cabeça girar todas as vezes em que ergo a cabeça e o vejo vir sorrindo até mim. Eu não soube o que fazer, me perdi por alguns instantes, e apenas tive a certeza de que poderia sorrir; sorrir agora correspondendo ao teu sorriso que encaminhava-se até mim do jeito mais doce. Como isso pôde ter sido tão mal planejado? Apenas mais um momento despreocupado, como aquele em que você me fez comentar sobre a fotografia em que sua maior inspiração protagonizava, que encantou e tornou-se também minha fonte. 

As estações passavam e eu pouco notava, apenas observava minhas mãos jogando o celular de uma mão à outra. Um sino parecia projetado para atormentar minha mente; eu ouvia os ponteiros do relógio desafiarem o meu tempo. Tudo era a mais pura confusão, mas eu insistia em prosseguir, ignorando vozes que soavam impetuosas em minha mente. Encostei no muro na plataforma, avistei um rapaz de cabelos escuros que iam até a nuca, me movi um pouco, morrendo por dentro, mas logo a ansiedade me avisou que me importei à toa. Não era você. E foi depois de alguns minutos, que pareceram horas, quando meus dedos já não aguentavam mais tiquetaquear na pilastra que ergui meus olhos e o vi.

Me lembro como se fosse hoje, agora. Só houve tempo de devolver o celular ao bolso, e então recebi o calor que senti apenas naqueles sonhos dispersos das noites de devaneios. Um tom de voz tão doce e  cauteloso, palavras no visor do celular, uma imagem: Você

Eu ainda lembro da camisa cinza, aquela que eu toquei quando seus braços me envolveram no abraço que eu esperei tanto tempo, que acompanhou sua voz dizendo o quanto era bom estar ali. Poderíamos congelar momentos e voltar neles quando quisermos, não é? pois eu reviveria aquele incontáveis vezes."

... Ela fecha os olhos. O revive.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.