Nova Perspectiva

11 de outubro de 2016

Não existe mais nós dois

Não, não não! Não gasta o nosso tempo contando mais uma das suas desculpinhas. Eu não quero saber onde é que você estava na noite passada, não precisa vir tentar me convencer de que só estava com os seus amigos ou me provar que você não fez nada de errado, porque eu já não acredito mais. Uma hora a gente cansa, sabe? E eu to cansada, exausta, esgotada. Gastei toda a minha força tentando me convencer de que você merecia todas as chances que eu te dei e você desperdiçou. Não foi uma, duas, três... eu perdi a conta de quantas vezes deixe você voltar mesmo tendo prometido pras minhas amigas que te colocaria pra fora. Hoje, depois de mais uma noite em claro esperando você me responder, eu resolvi trancar a porta. Já passou da hora de te tirar da minha vida.

Nem tenta me fazer mudar de ideia. Nada do que você disser vai me fazer voltar atrás. Eu to encerrando a nossa história. E nem adianta vir até aqui com um dos textos do meu escritor preferido na ponta da língua pra me fazer acreditar que agora cê vai melhorar. Eu sei que não vai, cê é um bom ator, confesso, dá até vontade de acreditar, mas hoje eu sei que é mentira. Sempre foi. Você mentiu quando disse que me amava e que eu era a mulher da sua vida, a verdade é que eu era só uma certeza que cê tinha, uma situação confortável. Eu tava aqui quando você queria, quando batia carência, saudade, ou sei lá. Eu tava aqui quando as suas festinhas ficavam sem graça, quando os seus amigos enchiam o saco ou pintava um problema que cê não conseguia resolver sozinho. Eu tava aqui e pra você isso era tudo o que importava.

Você mentiu quando prometeu pro meu pai que jamais me machucaria. Cansei de contar os hematomas que você deixou por dentro de mim. Feridas que nunca mais vão cicatrizar. Você mentiu quando disse pra minha mãe, coitada, que cuidaria da filha dela. Cê foi relapso com tudo o que eu sentia, ignorou todas as vezes que eu te implorei, isso mesmo, implorei pra me valorizar um pouco. Só um pouco. Eu tava tão na merda que eu teria aceitado qualquer migalha da sua atenção, eu só queria sentir você ali, comigo, mesmo que fosse rapidinho, só pra me lembrar de como era bom no começo. Das rosas que você me deu, ficaram só os espinhos que me rasgam por dentro quando eu lembro de como fui trouxa. De como eu deixei você se divertir comigo, brincar com os meus sentimentos. De como eu aceitei estar nessa situação mesmo sabendo que tinha um mundo querendo me fazer feliz.

Nada do que você fizer agora vai apagar as marcas do que você fez, nada vai me fazer esquecer como doeu e sangrou e eu tive que me cuidar sozinha. Nada vai apagar as lembranças ruins, as madrugadas em claro chorando um oceano sem saber o que você tava fazendo. Ou sabendo e querendo me enganar. Nada vai apagar os filmes que eu vi sozinha porque você nunca tinha tempo ou os jantares que eu fiz pra nós e acabei sem a sua companhia porque cê desmarcou de última hora. O resto sempre teve mais importância do que eu. Seus amigos baladeiros, aquelas meninas que cê conhecia e levava pra casa e achava que eu não sentia o cheiro depois na sua roupa. Tudo sempre veio antes, e eu ficava lá, jogada de canto, como um boneco velho que só interessa quando os outros brinquedos não estão por perto. Nada vai me fazer voltar atrás agora, o copo transbordou e eu não quero mais me encher com a sua água podre.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.