Nova Perspectiva

25 de outubro de 2016

Eu to te tirando de mim


O fim é um processo lento. Foi isso que eu descobri depois que você foi embora. Antes a gente acha que vai ser fácil, que é só virar a página e seguir, oras, porque seria diferente? Mas demora. A página pesa, não muda. São lembranças e mais lembranças que lutam pra não virar passado. E a gente sofre. Nada aconteceu como eu achei que aconteceria. Eu me programei pra baladas e encontros e uma transformação completa de tudo, desde os móveis até a cor do meu cabelo. Queria ficar ruiva, mas mal me restou forças pra penteá-lo depois do banho. Passei semanas pulando do sofá pra cama e da cama pro sofá. Sair pra qualquer lugar que fosse deixou de estar nos meus planos. Eu não conseguia. Meu corpo tinha estado numa guerra e precisava se reconstruir.

Eu sabia que aquela era a decisão certa. Não tínhamos outra escolha. A gente insistiu enquanto dava pra lutar, mas nossa história já tinha dado game over, só que eu não conseguia te esquecer. Você foi embora, mas o seu fantasma ficou. Tudo me lembrava nós dois. A padaria aqui perto de casa, a pracinha da esquina, minha pizzaria favorita. As nossas séries e músicas e filmes. E os nossos amigos. Ah, os nossos amigos... era difícil estar com eles e não ter você. Faltava algo, eu me sentia incompleta. É o tempo, eles diziam, e eu fui deixando ele passar. Chorei muito mais do que esperava chorar. Mantive suas coisas espalhadas pelos cômodos, como se você fosse voltar. Mas cê não viria e eu precisava me acostumar. O fim é bem mais complicado do que falam. Ele arde e queima e faz a gente sangrar por dentro mesmo quando é o melhor caminho.

Eu acreditava que estava pronta pra dar adeus pro nosso amor até chegar a hora de dar, e então eu quis te pedir pra voltar e ficar um pouco mais até o frio ser suportável e eu não precisar mais do seu corpo pra me esquentar, mas não podia fazer isso. Chega um momento em que a única alternativa é ir embora. Mas não foi fácil, não tá sendo. A gente faz um monte de planos e quando chega a hora tudo o que conseguimos é chorar e lamentar perguntando se não podia ter sido de um outro jeito. Foi doloroso começar a te colocar pra fora. Eu tinha medo de esquecer do seu cheiro e das covinhas que formavam na sua bochecha quando você sorria. Tinha medo de abandonar as surpresas que me arrancaram algumas lágrimas e não conseguir lembrar da forma apaixonada como você me olhava. Eu não queria esquecer.

Ninguém vai substituir a nossa história. Não importa com quantos caras eu saia ou com quantas mulheres você namore. Nós seremos sempre nós. Mas é preciso seguir em frente. E eu to seguindo. Consegui apagar as nossas fotos das redes sociais e a parar de ir atrás do seu perfil pra saber o que cê anda fazendo. Não é mais da minha conta. Eu to te tirando de mim. Aos poucos. Mas to conseguindo chegar ao fim. Ele tá próximo, eu sinto. E ainda terão outras histórias e outras pessoas e outras lembranças e sei que seremos felizes. Cada um de um lado, cada um a sua maneira. Mesmo que afastados, mesmo que a gente nunca mais se encontre, eu sei que você ainda vai mostrar essa covinha pra muita gente e eu terei outros sorrisos sorrisos pra me apaixonar. Sem pressa, no tempo certo, você acaba saindo de mim.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.