Nova Perspectiva

11 de setembro de 2016

Sobre a dor que se conserva


A gente é problema da gente. No fundo, sempre pensei assim. Não que eu dispense dar ou receber ajuda, muito pelo contrário. Mas é que se a gente não se ajudar também, não adianta, sabe? Não adianta depositar toda a fé na poupança do outro. Não adianta esperar que a cura venha de outrem. O lado exterior pode até nos apresentar soluções, mas o problema se resolve do lado de dentro. É linha vertical. Entrar em acordo com o Cara lá de cima e tocar o barquinho. Na horizontal se remedia, mas, não cura.

É tudo questão de se encontrar. É que a gente se procura em tanto lugar errado. A gente se procura em tanta gente, besteira. Quem convive comigo - ou me lê - sabe muito bem que ninguém aprecia tanto a beleza de cada detalhe do amor como eu. Mas, sejamos realistas: não adianta procurar no outro resposta para os próprios enigmas, ninguém vai ter. Ninguém nasceu pra solucionar os nossos problemas. Apoiar, adotar a dor, pegar o outro remo e ajudar a enfrentar a maré ruim é uma coisa, mas descarregar a bagagem em cima do outro e esperar que ele arrume tudo, é folga.

Tem muita gente ferida hoje. Muita gente com hemorragia na alma caminhando do nosso lado e a gente nem desconfia. Tem gente que cruza com você na rua e acabou de perder um amor. Tem gente que senta do seu lado no ônibus e nunca o encontrou. Tem gente doendo, em todo canto. Tem gente sorrindo na tua frente que se esconde no banheiro pra chorar. Eu sei. Porque eu sou assim. Às vezes, eu faço todo mundo rir, mas tô desabando. Tá tudo despedaçado, sabe? Dá pra juntar? Dá, mas tem que partir da gente. E por mais que a gente ajude ou seja ajudado, ferida a gente só cura quando decide que quer ser curado.

O problema é que tem muita gente que acha que cuspir dor nos outros vai aliviar a sua própria. E vem o estresse e a frustração e a gente joga pra fora como se fosse fazer doer menos aqui dentro. Mas não faz. Só dói mais. Não é machucando os outros que se cura os próprios machucados. Não é gritando com o outro que se cala o grito do que fere a alma. Não é. Nunca foi.

O que eu tô tentando dizer é que se você acordou de mau humor, teu cachorro não tem culpa disso. Teu papagaio não tem culpa disso. Teu parceiro (a) não tem culpa disso. Teu colega não tem culpa disso. E, mesmo que algum desses até tenha, a vizinha da esquina não tem. O entregador de jornal não tem. O tiozinho que te ofereceu um abacaxi na rua não tem.

Nunca vi alguém se curar ferindo o outro. Nunca vi resposta impulsiva guiada pela raiva melhorando relacionamento algum. Jogar o problema na cara do outro não resolve nada, só contamina. É gente que acorda com o pé esquerdo e chuta o direito de todo mundo. É gente com síndrome de sol, que acha que o mundo gira em torno de si.

É egoísmo demais pensar que somos os únicos a sofrer. Todo mundo sofre. A gente nunca sabe o que o que o outro tá enfrentando. A gente nunca sabe se não é bem pior do que o que a gente está. É por isso que eu prezo por mudança de ponto de vista: Quando a gente para de olhar só pro próprio umbigo, descobre que há um mundo de gente que também sente. Que também dói. Que também se estressa. Quando a gente para de esperar que os outros se encarreguem de nós e percebe que a gente, em primeiro lugar, é problema da gente, a gente descobre que não adianta procurar lá fora a cura que só tem aqui dentro.

Cada um é o X da sua própria questão. Não adianta multiplicar em problema de subtração. Não sou boa em matemática, mas isso, eu aprendi sozinha: Dor que não acrescenta não é de ninguém. Se minha dor não servir pra curar, ela é só minha. Em um mundo onde tantos engolem mágoa e cospem rancor. Minha dor eu transformo em poesia. Minha dor eu transformo em amor.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.