Nova Perspectiva

10 de setembro de 2016

Não me ame com o cérebro


Amar sempre foi complexo para nós dois. A verdade é que quando estamos nós dois embaixo dos lençóis, e dividindo pipoca no cinema, ou caminhando de mãos dadas pela rua na madrugada tendo apenas a lua como cúmplice, eu sinto que não precisamos de mais nada. Sinto que estou completo, pleno, preenchido.

Mas você sempre trouxe dúvidas para a nossa relação. Sempre jogou os talvez que criavam rachaduras em tudo o que eu tentava construir, manter, conservar. Óbvio que sempre admirei seu poder de questionar, de causar reflexão. Mas o amor precisa tanto assim ser racionalizado? Enquanto seu cérebro ia fazendo o trabalho, nossos corpos fazendo os deles, meu coração ia se tornando cada vez mais racional, conforme você ia jogando sobre mim suas frustrações, e seus julgamentos, e suas teorias de que o amor só machuca, quebra e destrói. De que todo relacionamento tem prazo de validade. De que o amor é apenas uma ilusão. Uma ilusão perfeita.

E então, eu quase acreditei que toda a mágica especial que eu criei para nós dois, um mundo onde relacionamentos só acontecem porque as pessoas querem estar juntas, onde uma crise não seria capaz de nos afastar e que sempre cresceríamos juntos, quase se desfez. Quase.

Sabe quando estou no meu apartamento e você chega correndo do trabalho, dizendo que sentiu o cheiro do meu café a quilômetros de distância e até sentiu o gostinho na boca? Sabe quando você está longe e me manda uma mensagem dizendo que viu aquele álbum de rock-indie dos anos 80 em que numa noite fria de inverno, cantamos tal música pelas ruas, bêbados, apoiados um no outro? Sabe quando eu vou pro banho e esqueço a toalha, e antes que eu peça, você entra no banheiro, trazendo não só a toalha, mas vindo para debaixo do chuveiro comigo? Então... Eu não estava errado. Isso tudo é amor. A lembrança que te conduz até mim, a saudade que parece sempre ter um lugar no seu coração quando estamos longe.

Relacionamentos podem ser racionalizados. Podem e devem. Mas o amor não. O amor é livre, selvagem, plural. O amor não se vê. Não se toca. Não se prende. Se sente.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.