Nova Perspectiva

28 de setembro de 2016

É primavera, meu bem


“Porque nada está perdido para sempre. E nesse mundo há um tipo de progresso doloroso, temos saudade do que deixamos para trás e sonhamos com o futuro.” Para sempre Alice.

Chegara ao fim a estação mais fria do ano e os ventos gélidos que antes invadiam o quarto, davam espaço para a brisa amena e a fragrância das flores. Era a primavera. A estação mudara, e não somente ela. Hoje, eu podia te contar que sonhei contigo, mas já não seria verdade. Após noites em claro ansiando por sua visita, eu, enfim, entendi que era melhor que você não viesse.

Abro os olhos como quem não espera nada além de avistar o conforto do lugar onde por tanto tempo dividi recordações com você. E chorei. Chorei quando você se foi, quando voltou, e se foi novamente levando embora parte de mim. Depois eu fechei a porta. Não por querer, e sim por precisar. A linha tênue que separava o desejo da necessidade era um paradoxo com o qual obriguei-me a conviver.

Eu precisava me recuperar de toda a bagunça que você tinha causado aqui dentro e do caos que havia deixado em mim. Agora acabara o inverno e o frio e as noites longas e a solidão. Hoje o choro fora de alívio. Alívio de quem por tanto tempo se fez refém de projeções em que o centro sempre foi um outro alguém. Alívio por saber que as rédeas haviam voltado a mim e de onde, na verdade, nunca deviam ter saído.

Há uma beleza passível de ser desvendada no fim que precede o recomeço. As perdas ao longo do caminho não se comparam aos ganhos ao término da jornada. A dor da ausência não apaga a chama de um novo encontro. Os sonhos não findam ao nascer do dia, eles abandonam o lar das ideias para tornarem-se concretos.

As certezas incapazes de serem expressas por palavras abrigam a serenidade e a paz de quem encontrou o objeto da procura. Eu me encontrei. Encontrei em mim as respostas que por vezes te cobrei. Sempre fui eu, e não você, muito menos nós. Uma vez descoberto, o valor do amor próprio transcende todo e qualquer preço capaz de ser achado nas migalhas lançadas pelo outro. Finalmente, eis que chegou a primavera, meu bem. E eu floresci.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.