Nova Perspectiva

23 de setembro de 2016

Carta da amante pro cara


Eu não devia ter acreditado em você, desde o começo eu sabia que o certo era cair fora, mas alguma coisa me prendia ali, alguma coisa fazia com que eu não tivesse forças pra abandonar o barco mesmo sabendo que ele tava furado. Tudo me indicava que você era cilada, e das grandes diga-se de passagem, só que aquele seu sorriso de canto quando você me olhava nos olhos e o seu jeito de sussurrar no meu ouvido o quanto a gente combinava acabou fazendo com que eu visse amor onde nunca houve verdade. E sem verdade não há amor.

Não sei dizer quem de nós errou mais, eu fui burra de apostar num jogo perdido e você de jogar com dois corações. Eu fui burra de engolir as mentiras que você vomitava e de me forçar a acreditar que o seu namoro já tava mais pra lá do que pra cá e que era questão de tempo até vocês acabarem. Cê dizia cheio de certezas que tínhamos nascido um pro outro e que eu só precisava esperar um pouco mais, sempre um pouco mais, e logo nós ficaríamos juntos pra sempre. Eu sabia que aquilo era desculpa, que na verdade sua relação tava ótima só que cê não queria ter de escolher entre nenhuma das duas porque era cômodo viver daquele jeito, era cômodo ter duas bocas e dois corpos e duas vidas, mas eu fingia que tava sendo enganada, que nem ela.

Eu não sei porque aceitei viver assim, logo eu que sempre achei isso tão errado. Eu parecia estar enfeitiçada. E tava. Tava enfeitiçada pelas suas palavras e promessas, tava enfeitiçada pela vida que você me fazia acreditar que nós teríamos, pela vida que eu queria ter. É que eu quis viver uma história que não existia, quis acreditar nela mesmo sabendo que era impossível, e isso pode parecer loucura, mas eu não conseguia entender que você não era meu e nem podia ser! Sei lá porquê eu não conseguia enxergar aquilo que estava diante dos meus olhos, sei lá porquê eu fiquei fantasiando uma relação que não podia acontecer. Não tinha como, sabe? Não tinha espaço pra mim, porque já tinha alguém ali no lugar em que eu queria ocupar e quando eu me dei conta disso devia ter sido o suficiente preu virar as costas e te dar adeus, mas eu continuei.

Eu insisti na gente, mesmo prometendo pra todas as minhas amigas que eu ia cair fora o mais rápido possível, mesmo sabendo que tinha uma terceira pessoa vivendo essa história e que ela, coitada, nem sabia e podia escolher o que fazer. Eu insisti na gente mesmo sabendo que eu podia sair muito machucada, como eu sai, e que mais gente podia ganhar uns hematomas no meio do caminho sem ter culpa do circo que nós tínhamos armado, eu de palhaça, você de plateia. Eu insisti na gente, mesmo sabendo que eu devia desistir. Foi loucura, eu sei, hoje eu sei, mas naquela época eu não sabia. Eu tava tão doente de amor que achava que precisava aceitar qualquer migalha pra não morrer vazia, como um doente em estado terminando achando que vai sobreviver com meia transfusão de sangue. O corpo não aguenta. O meu não aguentou.

De todas as coisas difíceis que eu já fiz na vida, a mais foi tirar o cabresto que não deixava eu encarar a realidade. Eu engoli de uma vez toda aquela situação. Ela desceu queimando deixando um gosto amargo na minha boca, mas mais cedo ou mais tarde aquilo seria preciso, mais cedo ou mais tarde eu teria de dar um basta pra toda aquela ilusão e enfrentar o que eu tava jogando pra baixo do tapete. E isso implicou te colocar pra fora. Cê nunca ia escolher uma de nós, e mesmo se escolhesse, você não merece nenhuma. Nunca mereceu. Você não merece um amor de verdade, porque você não sabe amar, teu amor é egoísta, ele machuca. Eu fui embora. Pouco depois ela foi também, e isso, confessor, deixou minha dor menor, saber que você ficou sozinho foi um alivio pra minha alma.

No fim de tudo, a única coisa que eu perdi foi a chance de não ter me enfiado numa história tão suja como a nossa. Já você, bem, eu nem preciso dizer né!?

2 comentários:

  1. Vivendo isso agora, sem saber sair dessa situação, numa grande ilusão, é horrível perceber que ele é o único que se aproximou de mim, ninguém quer ser meu amigo literalmente, num tem ninguém aqui, mesmo, só ele, se eu deixar vou viver só de novo, :(

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.