Nova Perspectiva

2 de agosto de 2016

Você tem sorte de ter me conhecido


Eu fui a sua muleta porque você sequer sabia andar sozinho quando eu cruzei o seu caminha na estação Armênia da linha azul do metrô em São Paulo. Você me olhou por baixo daqueles óculos gigantes e misteriosos e eu te olhei de volta e achei que a gente tinha se enxergado porque parecia que tinha muito pra ser visto e talvez isso fosse o destino nos colocando frente a frente pra testar os astros e eu queria entender o que é que você escondia por debaixo daquela armadura e sei lá porque eu resolvi arriscar quando você chegou pra me dar oi e eu não fugi. Fiquei. E te ensinei sobre Leminski e Bukowski e a arte greco-romana antiga e sua influência na literatura.

Apresentei pra você um mundo novo de bandas e músicas e cantores que você adicionou no seu repertório e cantarolou baixinho noites e noites no meu ouvido enquanto eu declinava numa paixão imprudente. Te mostrei livros obrigatórios e a gente discutiu sobre a dualidade dos pontos de vista e sobre como não concordávamos com coisa alguma, mas não tinha problema porque de um jeito ou de outro a gente se encaixava. Deixei você roubar meus escritores e pintores e pensadores favoritos porque não havia de existir mal nenhum nisso. E foi a minha bagagem emprestada que te transformou num desses caras legais que discutem sobre política e cinema e economia com o cigarro pendurado no canto na boca.

Eu, na minha inocência cega, fiz você se dar conta do cara maravilhoso que eu via aprisionado quando me perdia nos seus olhos, te convenci a liberta-lo porque não fazia sentido prender alguém tão bonito e depois dele solto cê achou que não tinha de estar mais preso à nada. Nem a mim. Fui eu que te criei quando exaltei seu ego com tanto elogio porque você achava que eu era boa demais pra você e que por isso cê precisava ir embora pra me deixar encontrar alguém melhor e então eu te mostrei que cê era bom também e engraçado e que tinha uma dessas belezas que deixam a gente sem foco tentando entender o que é que há de tão especial. E você inflou feito um pavão querendo roubar a cena e decidiu que brilhava mais sozinho.

Enquanto eu te escrevo esse monte de palavras embaralhadas sentada no sofá da sala com o coração remexido de uma coisa que eu não sei explicar bem o que é, você fica bêbado em algum bar cool e caro e escondido com a galera descolada e interessante que eu te apresentei. E eu me sinto engaiolada no caos que rege meus sentimentos porque eu queria que você fosse o cara legal do metrô e te fiz virar o cara legal demais pra ficar com a menina legalzinha do metrô. E cê nem era nada antes de mim. Você nem entendia dessas coisas e ouvia essas músicas e se vestia desse jeito. Você nem achava que os outros podiam querer escutar suas piadas e análises clichês sobre astrofísico. Eu te inventei. Você teve sorte deu ter cruzado a sua vida. O azar disso foi todo meu.


Imagem por: Sophia Linares

Um comentário:

  1. Que lindo e que triste!
    Adoreeeeeeei.
    A gente "faz" a pessoa e muitas vezes ela, no fim das contas, se acha cool demais para a gente.
    Quem nunca passou por isso, né?

    Beijoooos

    www.casosacasoselivros.com

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.