Nova Perspectiva

21 de agosto de 2016

Sobre mim, sem você


Você foi embora. Era uma quarta-feira. Fechou a porta na minha cara. Tirou a minha chave dos planos que eram nossos. Tava chovendo do lado de fora. A tempestade daquele dia me deu uma gripe danada, uns efeitos colaterais e umas ânsias de vomitar o amor que eu ainda sentia.

Por meses você foi o meu refluxo mais constante. Essas coisas que a gente sempre pensa que digeriu, mas sempre dá um jeito de voltar pra garganta com um gosto horrível. Engoli você umas milhares de vezes, mas nunca conseguia te digerir. Até que um dia eu te cuspi. Assim, sem dó. Já tenho problemas de estômago o suficiente pra ter problemas no coração também, meu bem. E você era um espinho na minha carne que ia acabar me matando.

Perdoa o meu vocabulário enxuto, indelicado e objetivo. Eu não sou assim. Sou toda subjetividade e busco encher tudo que sai de mim com doçura, você sabe. Mas é que ser subjetiva deixa muita entrelinha. E, hoje, eu tô te enviando essa carta pra esclarecer as coisas de uma vez por todas. Ser doce é muito bom, mas o teu ego já estava ficando diabético. Por isso, eu decidi te escrever diferente. E dessa vez, eu vou falar de mim.

Eu já gastei muitas linhas nessa vida falando de nós dois. Falando de você. Falando da dor que ficou em mim por dias quando a avalanche veio. Mas, hoje, eu tô te escrevendo pra falar sem segunda pessoa, nem terceira. É que eu encontrei alguém no meu singular que plural nenhum me ofereceu. Eu me encontrei, vê se pode? Eu precisei te perder pra me achar, porque a minha fixação me fazia cega. Aí eu te cuspi e comecei a sentir o gosto de ser eu. E eu reaprendi a sorrir. E a rir. E até fazer os outros rirem, acredita? Eu sou feliz, cara. Eu tenho tudo pra ser. Sempre tive. Mas hoje, eu sei.

E eu olho pro espelho e enxergo a minha alma. E eu arrumo meu cabelo como eu quero sem querer te agradar. E eu pinto as minhas unhas com aquele esmalte que você achava ridículo. E eu voltei pra minha cor de cabelo original. E a minha gargalhada é muito mais espontânea sem você do lado pra criticar como ela flui esquisita. E eu sou eu mesma e centenas de pessoas gostam de mim, assim, como você não gostava. Aí eu entendi aquela frase clichê que você disse ao me expulsar da tua vida: "Não é você, sou eu." E era mesmo. Não é que você tinha razão? Passei o tempo todo ao teu lado discutindo pra, hoje, escrever essa carta e dizer que você estava certo. Não era eu. Era você. O problema era você.

Porque até diante do fim, quando toda essa gente diz que a gente precisa achar alguém pra passar o tempo ruim, enquanto você seguia o padrão, eu não me conformei em ser igual. Ninguém é massa de cimento pra tapar os buracos e rachaduras que a dor deixa na gente. A não ser, nós mesmos.

Enquanto você corria atrás de outras pra tapar os furos dos teus problemas, eu mergulhei em mim mesma para solucionar o meu. O amor próprio me fez companhia nas noites vazias. Você foi embora e na divisão de bens eu fiquei com a melhor parte de nós dois: Eu.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.