Nova Perspectiva

16 de agosto de 2016

Sobre cicatrizes


Há 2 dias te vi em uma daquelas movimentadas esquinas em que sempre caminhávamos juntos. Naquela tarde, o sol, como quem conhece a hora certa da partida, já ia e dava espaço para que a lua ocupasse o seu lugar. Até os astros sabem o momento de se recolher.

O crepúsculo do dia sinalizava também o seu crepúsculo na minha vida. Pela primeira vez em muitos anos eu senti um fio romper dentro de mim, o mesmo que por tanto tempo me prendeu a ti. Fora o fim de um ciclo. O processo de cicatrização, enfim, se concluíra.

E por falar em cicatrizes, ainda lembro bem o dia em que você falou que nunca se tornaria uma delas, não em mim. E você, será que lembra? Será que lembra quando as tuas mãos entrelaçaram nas minhas e me fizeram crer que eu estava segura? Será que lembra quando o teu corpo encontrou descanso no calor do meu abraço? Será que lembra quando os teus lábios me juraram amor eterno? Eu ainda lembro... Mas já não dói mais. Já não machuca e não sangra. Cicatrizou.

Eu te confesso que não foi fácil. Você sabe bem melhor que eu que o fechamento de uma ferida se dá por etapas, algumas mais longas outras nem tanto. E eu passei por todas. Senti a minha ferida em carne viva, sangrei de uma forma que nem pensei que pudesse, doeu e nenhum analgésico foi capaz de aliviar. Durante todo esse tempo eu te procurei, empurrei a você a responsabilidade de curar todas as lesões que haviam ficado em mim. Afinal, era óbvio: a culpa era sua, sempre foi. Eu só não sabia que um mal não se cura com outro. E você era o meu mal.

E então, como alguém que já não sabe o que fazer e quem procurar, eu me permiti deixar os dias passar. Era chegada a hora de dar tempo ao tempo. Não sei ao certo quando, mas talvez entre as madrugadas em claro e as manhãs embebidas a café, eu encontrei o remédio que tanto procurava. Sim, eu me encontrei. Encontrei em mim mesma a cura para cada ferida que você havia deixado, e descobri ser capaz de reduzi-las a meras cicatrizes, daquelas que depois de algum tempo já nem se nota, mas que permanecem ali como um alerta, para te lembrar que não há como sair ileso de certas armadilhas da vida. Eu não saí.

Carrego comigo as marcas da nossa história e a exibo a quem merece conhecer. Pois é, você sabe, um campeão não exibe seus troféus a um qualquer, é o meu caso. E com o orgulho de quem perdeu muitas partidas, mas venceu a luta, observo atentamente a sua cicatriz em mim, já tão moldada e suavizada pelo tempo. Ainda assim o esboço certo de uma história incerta. Já era hora, finalmente chegamos ao fim.

Imagem: Via reprodução

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.