Nova Perspectiva

6 de agosto de 2016

Fiz uma limpeza aqui dentro e coloquei você pra fora


Nos últimos meses andava tudo muito confuso, sabe moreno? Tinha dias em que eu passava horas e horas e horas pendurada nas suas redes sociais tentando saber como é que você estava e o que é que que andava fazendo da vida, descobri que no último ano acabou a faculdade, finalmente, que mudou de trabalho e começou uma nova relação. Vi que você viajou pra Itália naquele pacote da agência da sua rua que a gente tanto planejou fazer e que navegou nas águas do rio Veneza ao lado de outra mulher. Como se eu nunca tivesse existido. E eu chorei e chorei e fiz as madrugadas ficarem muito mais longas me martirizando com a sua falta. Mas também tiveram dias em que eu não pensei em nós, nenhum instante, nenhum segundo, nem quando tocava as nossas músicas e eu ia nos restaurantes que tanto gostávamos.

Eu tava vivendo aquela fase de pós luto, em que a gente não sabe bem como é que vai ser dali pra frente e por isso fica tentando voltar atrás, mas não consegue porque já não da mais. É que no fundo nós sabemos que tudo o que foi não vai voltar mesmo que nos esforcemos pra isso. Acabou. Morreu. E nós enterramos tudo. Mas ficou a bagunça, ficou o caos, ficou todo o resto que você não quis levar contigo e eu não pude guardar de volta. Ficou aquilo que sobra quando o amor acaba. Um punhado de coisas feias e fedidas espalhadas pela casa atrapalhando o meu recomeço. Eu fiquei com o mais difícil quando você foi embora. E nem pude escolher se era o que eu queria. Fui eu quem ficou com a tarefa de limpar o estrago que tínhamos causado, e fiz isso sozinha.

Quando a dor começou a aliviar e eu passei a abrir as janelas e deixar a casa ventilar fui me dando conta de que só aquilo não seria o suficiente, eu precisava de mais, precisava colocar em ordem tudo o que estava perdido na sala e no quarto e nos outros cômodos. Eu precisava devolver tudo pro lugar certo e levar pra fora o que já não me pertencia mais. Tinha de dar um jeito de me livrar das coisas que me lembravam você e a sua ausência. Tirei do armário suas camisetas velhas que me serviam de pijama e o seu perfume barato que eu ai da borrifava no ar pra lembrar seu cheiro e as suas meias sem par certo que eu usava pra esquentar meus pés no inverno. Coloquei o vazio que ficou do seu lado na cama dentro de uma sacola com aquelas promessas que não deu tempo de cumprir e os planos que não vão sair do papel. Juntei tudo e esperei o caminho de lixo passar pra ter certeza que não ficaria nada.

Eu fiz uma limpeza aqui dentro, esfreguei cada canto da minha alma até não restar resquícios da sua voz sussurrando na minha orelha e da sua boca me engolindo com beijos. Eu me esvaziei porque não tava aguentando mais transbordar por alguém que não era mais meu. Nós fizemos nossas escolhas, você primeiro, e eu sem seguida. Não dava mais pra continuar te esperando, menos ainda pra te deixar voltar. Então fiz a única coisa sensata que era possível e me livrei dos nossos fantasmas. Cê já tinha ido, só faltava colocar o seu lixo pra fora, agora não tem mais nada seu aqui, e isso inclui eu, que até continuo na mesma casa e na mesma rua e com o mesmo sorriso manso de quem não nasceu pra sofrer, mas já não te pertenço mais, agora eu sou minha.

Imagem: Thaila Ayala

Um comentário:

  1. Gabriela, eu amo seus textos todas as noites eu leio, conheci eles no momento certo, no momento difícil pra mim, parece que você lê meu pensamentos e ta escrevendo minha vida no momento.
    Espero que os futuros textos seja de superação e eu esteja tbm nesse momento, não vejo a hora desse dia :(

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.