Nova Perspectiva

5 de agosto de 2016

Depois de você


Oi meu amor, como é que está tudo por aí? Como é que está por ai, quer dizer, como é que poderia estar? Isso soa um pouco patético demais, eu sei. É como se ai fosse um lugar desses em que escolhemos passar as férias e você fosse voltar logo. Mas não é, eu sei, e você não vai mais vir. Você não vai nunca mais estar aqui e só Deus sabe o quão imensurável é a tortura de não ter mais você me olhando enquanto eu finjo estar dormindo só pra ter certeza de que sou eu quem te tira o sono. Eu sei que demorei pra te escrever, mas é que eu ainda não sabia direito por onde começar essa carta. Nem se eu deveria. 

Depois de você algumas coisas mudaram por aqui, eu precisei trocar algumas mobílias, mudar alguns móveis de lugar e comprar um aromatizante diferente, foi o único jeito que eu achei pra sobreviver ao vazio que ficou quando a vida te roubou de mim. Depois de você eu comprei um novo sofá pra sala porque aquele tinha o seu cheiro impregnado e cada vez que eu me deitava nele um fragmento do meu corpo era arrebentado pela dor de não poder nunca mais te ter de volta. Também substitui a nossa mesa, sei que levamos meses pra encontrá-la e que ela parecia perfeita, mas não tinha como eu sentar nela todos os dias sem lembrar das noites e tardes em que o nosso amor transbordou ali em cima. Eu sangrava por dentro quando passava os dedos pela madeira e me dava conta de que nunca mais você me apoiaria ali.

Depois de você eu precisei tirar coragem de onde não tinha pra começar a doar as suas roupas abandonadas no nosso armário, por mais que eu quisesse mantê-las aqui eu sabia que você não voltaria para busca-las. Não tem mais como. Pra trás eu só deixei aquele seu moletom azul escuro que eu usava vez ou outra quando fazia muito frio, depois de você, confesso, ainda tem noites em que eu o coloco só pra sentir que ainda te tenho comigo. Depois de você eu tranquei a faculdade, em partes porque cê tinha razão quando dizia que aquilo não tinha mais nada a ver comigo, mas também porque ficou impossível acordar todos os dias tão cedo sem ter o cheiro do seu café zanzando pela casa e me dando bom dia, falando nisso, depois de você eu nunca mais adocei o meu café, é que não tem a mesma graça sem a sua cara de reprovação me encarando como se eu estivesse fazendo algo muito errado.

Depois de você eu nunca mais pedi pizza de calabresa com catupiry, porque era o seu sabor favorito e o cheiro quando me queima mais do que um tiro de fuzil penetrando nos meus órgãos mais sensíveis. Depois de você eu nunca mais consegui ouvir os discos do Caetano, é que eles gritam na minha cabeça sobre um passado que nunca mais vai poder acontecer fora das minhas lembranças e das fotografias que eu espalhei pela casa pra não esquecer do seu rosto. Depois de você eu parei de assistir Orange is the new black, de ler Clarisse e de acompanhar os noticiários, porque eles só passam aquelas notícias que assustam e agora você não está mais aqui pra me proteger. Depois de você eu nunca mais sai, não fui aos aniversários dos amigos e nem as festas de família, é esmagador estar ali no meio conversando com alguém e saber que em momento algum os seus braços vão me abraçar por trás arrepiando cada pedaço do meu corpo.

Depois de você eu nunca mais consegui sorrir, porque eu ainda não descobri um remédio que cura o vazio que se mudou pra dentro de mim. Depois de você eu chorei todos os dias durante dois meses seguidos, porque sangrar pelos olhos foi tudo o que me restou quando o destino me transformou em caquinhos tirando você de mim. Depois de você eu não consegui voltar a fazer meus planos e nem pensar naquele mochilão que faríamos pelo mundo. Nada tem mais graça sem a sua companhia. Depois de você eu não sei se vou conseguir levantar sem sentir o peso do mundo nos meus ombros, nem se em algum momento eu vou acreditar em final feliz de novo. Eu sei que dai você espera que eu consiga porque cê sempre foi desses caras que acreditam que dá pra gente recomeçar independente do tom, mas eu não sou assim, e daqui eu só consigo continuar querendo que depois de você nada disso nunca mais tivesse existido.

Imagem: Sophia Linares

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.