Nova Perspectiva

1 de agosto de 2016

Com ponto final


Meu caro,

Posso até duvidar do poder da minha doação, mas, ultimamente, tenho duvidado muito mais de cada uma das tuas tão recorrentes promessas. Posso visualizar o amor que te dei como o sangue a correr pelas minhas artérias, e o teu descaso como a gordura que fez de tudo para entupi-las. Hoje, saí do coma, mas, continuo internada no Hospital Geral dos Corações Dilacerados. Peço que não venha me visitar, muito menos se preocupe em mandar flores, pois, sou perfeitamente capaz de sobreviver sozinha, e a última coisa que preciso é da pena de quem me deixou assim.

Todos os meus amigos me alertaram sobre você, mas o amor é surdo. Somente eu não fui capaz de enxergar o que todo mundo vê, mas o amor é cego. Durante todo esse tempo não fui capaz de dizer muito do que eu sentia, pois, o meu amor é mudo, entretanto, tão logo serei capaz de amar novamente, já que o amor é tudo.

Você perdeu uma companheira, alguém que fez e - certamente - continuaria fazendo o impossível por ti, e mesmo eu não pedindo muito, você não pôde me dar nada. Quantos cafés esfriaram esperando por uma visita que nunca chegava? Quantas pilhas eu tive que comprar para que o meu relógio pudesse marcar o tempo da sua chegada? Cansei.

Fiz, aqui mesmo no hospital, uma consulta com um oftalmologista especializado em desilusões amorosas; agora tenho novos óculos, e consigo enxergar coisas que eu nem sequer imaginava que pudessem existir de verdade, como, por exemplo, o amor próprio. Me foram receitados analgésicos para aliviar as dores de te ver com outro alguém e antivirais que me impeçam de ser - novamente - infectada pelas tuas palavras.

Mais cedo ou mais tarde terei alta e sairei dessa, pois, tenho aprendido muitas formas de me livrar de ti. Por outro lado, você nunca será capaz de se livrar de si. 

Com ponto final.

Imagem: Sophia Linares

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.