Nova Perspectiva

26 de agosto de 2016

A gente ainda vai se encontrar


É melhor assim, você disse antes de fechar a porta da sala e jogar as suas coisas no banco de trás do carro junto das lembranças e dos planos que não servem mais pra gente. Eu sabia que era, mas quando você pegou os seus filmes da nossa estante e tirou as suas roupas do nosso armário e recolheu os seus discos espalhados pela nossa casa pra colocar tudo dentro de uma mala velha eu achei que não ia aguentar. Eu achei que ia morrer de tristeza porque nada nunca tinha doído tanto. Nem quando eu cai da escada e quebrei o pé e a ambulância demorou mais de uma hora ou naquela vez em que fomos pra praia e uma água viva encostou no meu braço deixando uma queimadura que durou meses. Nem todas as cólicas que eu senti ao longo desses anos ou quando eu fui demitida meu do emprego dos sonhos. Nada me dilacerou tanto quanto te ver indo embora.

Os dias ficaram nublados depois do nosso último beijo. Fez um pouco de frio também, mas eu acho que foi só dentro de mim, porque lá fora as pessoas continuaram desfilando com seus vestidos e sorvetes e sorrisos. E eu fiquei aqui, presa nas palavras que as nossas lágrimas silenciavam enquanto você me pedia desculpa por não ter conseguido continuar. Tudo bem moreno, eu também não consegui. E eu olhava ao redor tentando encontrar alguma coisa sua pra poder te ligar e dizer que ainda tem algo te esperando, mas a única coisa que ainda te pertencia naquela bagunça era eu e isso você não podia voltar pra buscar. E eu sei que você também vasculhou a sua mala duas ou três vezes na inquietude de ter deixado alguma coisa pra trás, qualquer coisa, e que também passou as madrugadas geladas procurando pelo meu pé na cama e olhando o meu número no visor do seu celular se perguntando porque é que tem de ser assim.

Mais ninguém entendeu quando mudamos o nosso status de relacionamento e apagamos as nossas fotos das redes sociais. Ninguém entendeu o que tinha acontecido quando cê foi numa balada e ficou escondido num canto procurando por mim na esperança de me ver mesmo que só de relance. Do mesmo jeito que ninguém entendeu no dia em que eu fui jantar com alguns amigos e só conseguia falar o teu nome durante a noite toda. Ninguém entendeu nada, porque não fazia sentido se tudo o que acontecia nos lembrava um do outro nós nos contentarmos só com as lembranças. E ninguém entendeu o que te fez sair de casa se no fundo sabíamos que a gente ia continuar morando um dentro do outro. Nem a gente entendeu. Nem a gente soube explicar em que momento começamos a desandar e não conseguimos mais nos colocar no eixo. Porque nós nos amávamos e nos queríamos e nos tínhamos, mas isso deixou de ser suficiente pra que continuássemos juntos.

O nosso amor deixou de ser o bastante pra enfrentarmos as brigas e as discussões e o resto do mundo. O cansaço de bater de frente contra tudo acabou nos destruindo e não tinha outra saída além de você levar as suas coisas pra fora e a gente fingir pro mundo que tava tudo bem, mesmo que nunca mais tenha estado. E eu sei que você ainda pensa em mim antes de dormir do mesmo jeito que eu penso em você quando deito com a cabeça no travesseiro e todo mundo sabe que a gente ainda se procura em outros beijos tentando tapar um buraco que só o outro conseguiria e que tentamos nos achar em outros braços ou nos perder em outras pernas, mas que no final a gente volta pra casa tentando achar uma resposta do porque apesar dos dias passarem e das pessoas chegarem e de tudo ao nosso redor andar pra frente, nós continuamos assim, estáticos, inertes, com a certeza de que a gente não acabou por aqui.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.