Nova Perspectiva

1 de julho de 2016

Vai com calma


Estamos na estrada. É noite; um dia quente, mas que agora se transformou numa noite de brisa fria. As janelas estão abertas; nossos cabelos, aos ventos. A lua brilha num tapete negro; estrelas piscam para nós, confidentes. No rádio, aquela baladinha de rock com influências dos anos 80. Quase ninguém na rua. As luzes das casas já meio apagadas.

“Vai com calma, amor”, você diz, pousando a mão na minha coxa de forma natural.

E eu me arrepio. É sempre assim. Não tem como fugir. Você sempre consegue, não é? Você sempre ganha. Tento disfarçar um pouquinho, mas tenho certeza que há uma mágica no seu corpo que faz com que as ações mais simples se tornem uma grande tempestade dentro de mim, fazendo com que eu me entregue. Sempre. Freio um pouco o carro e vou diminuindo a velocidade. Olho para você e sorrio. Você retribui.

Sempre gostamos do silêncio; nosso tempo nunca precisou ser preenchido por palavras. Nossos silêncios se comunicavam com eficácia. Nossos olhares conheciam as intenções um do outro. 

O semáforo à minha frente pisca. Um claro sinal de Atenção.

“Vai com calma, rapaz”, o semáforo quer dizer. “Vai com calma, não atropela as coisas. Viva os momentos e espera que o destino se encarrega do resto”.

Assinto com a cabeça, enquanto passo a marcha e depois entrelaço a minha mão na dela.

Há uma sensação gostosa de dirigir com apenas uma mão, segurando a mão dela com a outra, enquanto não há carros no asfalto, e apenas nós dois, e a madrugada, e nossos desejos selvagens e toda a saudade que fica ali, apertando meu pescoço bem de leve. Mas então, quando percebo, já estamos na frente da casa dela. Como sou idiota! Por que não peguei o caminho mais longo? Olho para o prédio por um tempinho; eu conheço cada cômodo dessa casa, de olhos vendados. Ela suspira, chamando a minha atenção, e me olha, procurando sinceridade nos meus olhos. E eu dou isso à ela.

“O que você quer?”, ela pergunta, com a voz meio tremida.

Minha resposta é simples, eu sei. Eu queria dizer: “quero você de verdade, como nunca quis ninguém, porque eu sonho em te levar para o altar, e é você quem eu quero que esteja nos almoços de domingo na casa dos meus avós, até porque só você vai entender quando eu fizer aquela piadinha meio sem graça com referências de algum filme da Marvel ou vai ter coragem o suficiente para reclamar do meu gosto musical.” Mordo os lábios. Eu sei que não posso despejar tudo isso, dessa forma.

“Você”, é tudo o que falo.

Ela suspira. Há medo ali. Há desejo também. Tudo misturado; um sentimento reprimindo o outro.

“Vamos com calma”, ela pede.

Outro pedido para ir com calma. Concordo com a cabeça e apenas a beijo na testa.

“No seu ritmo”, sussurro para ela.

Ela se despede com um beijo breve e sai do carro.

Ainda estou parado em frente ao apartamento dela; o carro em ponto morto. Mas meu coração, uau, está acelerando, e acelerando, e acelerando.

“Vai com calma”, sussurro para mim mesmo. 

Espero que meu coração tenha escutado.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.