Nova Perspectiva

2 de julho de 2016

Pra ser feliz eu abri mão da nossa história


Solto a coluna pra trás em sinal de desconforto quando vejo vocês dois entrarem juntos na padaria. Fico encostada na cadeira torcendo pra que você desista de ficar ali e vá embora, mas eu sei que é em vão, tá na hora do café da manhã e este sempre foi o seu lugar preferido pra comer. Em silêncio eu me pergunto o que é que eu to fazendo ali, afinal, nunca foi o meu lugar, surpresa constato que não sei. Aprendi a amar este pão de queijo e o café amargo e as carolinas com granulado por cima. Foi você quem me ensinou.

Ela entra primeiro e você vem logo atrás, caminham de mãos dadas até o balcão e se sentam por lá mesmo. Você cumprimenta os garçons, velhos amigos de um velho freguês, e eu quase posso te ouvir pedir aquele pingado de sempre com um pão na chapa e requeijão na saída. Quase posso sentir seu cheiro também. E seu beijo. Mas afasto tudo da minha mente antes de se tornar incontrolável. Analiso a cena por alguns segundos enquanto dou mais um gole no meu café preto. Pela primeira vez em muito tempo eu sinto um incômodo azedo subir do meu estômago e entalar na garganta. Tem alguém no meu lugar. E eu não sei o que acho disso.

Tá certo, era fato que uma hora ou outra a sua vida teria de andar pra frente. Fui eu que escolhi ir embora. Fui eu que te deixei livre. Eu aceitei as consequências do meu ato no dia em que coloquei as malas no carro e prometi não olhar pra trás. Aceitei que acabaríamos ali, porque não tinha outra saída e nem solução melhor pra arrumar o que a gente tinha virado. Já não dava mais, eu precisava ir. Nós dois sabíamos. Tanto que você não me impediu, nem tentou. Não dava mais pra salvar nós dois, então precisávamos salvar o que tinha sobrado de cada um.

Dia após dia nós estragávamos um pouco mais o que restava de bonito entre a gente. E tava tudo ficando feio, podre. Nossas lembranças estavam sendo marcadas com brigas e brigas e noites intermináveis de choro mudo. Não era justo com nenhum de nós. Não era justo com aquelas memórias que havíamos construídos juntos. Sabemos que eu tomei a melhor decisão, por mais dolorosa que ela tenha sido, e foi. Fiz o que precisava ser feito, coloquei o passado na bagagem, guardei o que vivemos no coração e abri a porta pra vida nos dar uma nova chance de tentar. Não estávamos felizes, e eu queria estar, merecia estar. Assim como você. Então tive de abrir mão da nossa história.

Ela amarra o cabelo em um rabo de cavalo estranho que não ficaria bem em nenhuma outra mulher, mas fica lindo nela, e você percorre o salão com os olhos, como se soubesse que tem algo precisando ser encontrado. Algo que tem de ser visto. Então a gente se acha. E o mundo ao nosso redor para. Prendo a respiração e tenho a impressão de que você faz o mesmo sem sequer notar. Busco desviar os olhos, penso em fingir que não te vi e sair correndo dali, mas você me olha fundo e sorri, instantaneamente eu sorrio de volta e já não é mais incômodo ter você ali. Já não é mais estranho te ver de longe. Nem com alguém.

Nós nos olhamos mais um pouco, como dois velhos companheiros se olhariam, e entendemos tudo. A gente não fala nada, mas eu sei que você também pensa no que eu penso. Que também lembra do que eu lembro. Que também revivi o que eu revivo. Do primeiro beijo à ultima briga. Do pra sempre ao não dá mais. Um filme passa por nós, e não ficam dúvidas de que tudo valeu a pena. Tudo. Termino meu café e te aceno com a cabeça um adeus envergonhado. Você retribui sem tirar a mão da mão dela, e eu levanto pra ir embora. De novo. E não precisa me agradecer por isso, só seja feliz, porque eu juro que to sendo.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.