Nova Perspectiva

31 de julho de 2016

Desaprendi a ler poesia


Tem um livro do Fernando Pessoa estagnado no meu criado-mudo desde a madrugada em que você saiu de fininho tomando cuidado pra não ser visto, acho que cê não queria ter de lidar com toda a cena que eu estava sujeita a criar. Ele apodrece junto da carta que você deixou e eu não tive coragem de abrir até agora porque, droga, a gente merecia muito mais do que um maldito bilhete de despedida escrito a meia luz pra me dizer o que você não teve coragem de proferir na última noite em que me abraçou e sussurrou que seria pra sempre eu e você. Era mentira, sempre foi, e agora eu não sei mais o que daquilo tudo eu posso salvar e guardar na estante como algo bonito porque pode ter sido tudo uma encenação maldita pra me deixar envolvida nos teus olhos castanhos claro que até hoje refletem em mim.

Vago pela casa assustada com o tamanho que ela ficou depois que você foi embora, os cômodos parecem grandes demais pro vazio que se mudou pra dentro do meu peito. As paredes úmidas e frias sangram a sua falta e me coagem a encolher num canto qualquer agarrada as pernas que você não toca mais com as suas mãos quentes e grossas enquanto eu arranco sua camiseta bordo que cê insistia em dizer que era marrom. Ela ficou pra trás junto de todas as coisas que a gente planejava fazer e você abandonou por não servirem mais, faz semanas que ela mesmo tão surrada me serve de pijama e acalenta a minha alma com o seu cheiro que vez ou outra me faz acordar achando que você voltou. Mas eu ainda estou sozinha e dói, dói, dói até que eu adormeço com as lembranças de um futuro que nós nunca mais teremos a chance de viver.

Desaprendi a ler poesia, porque cada verso que meus olhos engolem é um vômito que escorre pela minha face. Não faz sentido ler camões quando você consegue ver o fogo do amor arder e a ferida doer e nada a faz estancar. Não faz sentido ler Camões se todas as estrofes falam sobre algo que eu não consigo mais entender porque você destruiu toda a minha capacidade cognitiva quando disse que me queria mas mudou de ideia segundos depois sem ao menos me dizer adeus. Não faz sentido ler coisa alguma quando as métricas soam exatas demais pra inexatidão que eu me transformei. Não faz sentido ler e procurar na dor dos outros o que eu não consigo nem achar na minha. Você não pensou em quantas rimas sufocaria na minha alma quando escreveu a merda de um texto pra dizer que eu não era mais boa o bastante pra fazer você ficar.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.