Nova Perspectiva

5 de julho de 2016

Amor verdadeiro só o nosso

Ele termina de ler as duzentas páginas do meu primeiro livro. Faz mais de três horas que ele permanece parado em silêncio de frente para o computador. Aos poucos vai girando devagar a cadeira, como se estivesse analisando quais palavras pretende me dizer. Por dentro a insegurança me congela e eu estremeço um pouco. Em seguida, encara meus olhos, ainda emudecido, e eu sinto meu rosto corar, não sei se de vergonha, medo ou ansiedade. Talvez um pouco dos três.

— Fala alguma coisa Thiago!
— Calma, eu to pensando.
— Não tem que pensar. Precisa falar a primeira coisa que tiver passando na sua cabeça.
— Hum... É um livro bom.
— Bom?
— Sim.
— Só isso?

Um silêncio constrangedor invade o quarto e eu tenho vontade de jogar um travesseiro em cima dele. Como assim só bom? Eu passei um ano escrevendo aquelas malditas páginas e isso é tudo o que ele consegue me dizer?

— Não é só isso. Bom já é muita coisa.
— Muita coisa é o cacete! – Inconformada lanço a almofada parada no meu colo e ele segura com as mãos antes de atingi-lo.
— Tá bom pra caralho. Pra caralho é muita coisa?
— Eu esperava mais de você. Péssimo namorado.
— Cê sabe que não é meu estilo de leitura. Não tem arma, agentes supersecretos e nem aliens. Cara, um livro sem aliens não pode ser mais do que bom pra caralho.
— Para de falar palavrão. – Respondo fazendo uma careta.
Não é palavrão, é um recuso linguístico. Você como escritora deveria saber!
— Uhum...
— Adverbio de intensidade. Joga aí no google Jú.
— Cala boca. – Solto uma risada jogando outra almofada em cima dele.
— Você vai bombar, tenho certeza.

Ele me puxa pra sentar em seu colo e eu vou sem me esforçar pra impedir, jogo meu corpo em cima do dele e a cadeira volta um pouco pra trás. Odeio essas rodinhas, penso. Odeio a sinceridade dele também. E o medo de que toda história esteja uma droga me consome por dentro. Respiro fundo. Só não é o estilo dele, tento me convencer e como se lesse meus pensamentos me rouba um beijo e eu perco o medo.

— Eu sei que você tá nervosa, mas vai tranquila. A história tá foda, tá bonita, tá boa mesmo! Você vai arrasar.
— Eu só to ansiosa...
— É normal, mas confia.
— Confio!
E eu achei que o livro seria sobre nós dois.
— Não...
— Isso me decepcionou um pouco.
— É?
— Uhum, afinal cê disse que era meio baseado em fatos reais.
— Pois é.
— E então?
— E então o que?
— Quem é um cara?
— Que ela se apaixona?
— Exato.
— Um babaca. Por isso eles não terminam juntos.
— E a gente?
— Ela ainda não conheceu, mas fica tranquilo, no próximo, quando eles se esbarrarem, ela vai saber.
— Vai saber o que?
Que isso sim é amor verdadeiro.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.