Nova Perspectiva

19 de julho de 2016

Amor não é esmola


É difícil essa parada de aceitar que certas coisas não são suficientes pra gente, principalmente quando se trata de algo que você quis muito e lutou muito pra ter. Nós tentamos acreditar que não tem problema dar um pouco mais do que recebemos porque uma hora ou outra vamos ter de volta, mas no fundo a gente sabe que mais com menos só tem um resultado e é sempre negativo. Sempre. Uma hora a gente esvazia, mingua e adoece. Um cansaço que vai consumindo nossa vontade de sair da cama e de sorrir e de acreditar que as coisas podem mudar. É uma fraqueza sofrida porque a alma acaba entrando em estado anêmico. Falta amor pra ela sobreviver. Então a gente se vê em um beco sem saída, já que não da pra se doar inteira e receber migalhas e achar que vai continuar tudo bem. Não vai. Não dá. Uma hora o nosso corpo pede a conta do caos que estamos causando e é preciso pagar, fechar pra balanço e reestruturar o orçamento.

O momento mais foda, ao contrário do que pensam, não foi olhar pro lado e perceber que eu tava sozinha, porque no fundo isso eu sempre soube que estava, mas foi quando eu precisei olhar pra mim e enxergar que eu tava vazia. Oca. Crua. E que a culpa era toda minha. Fui eu que deixei ele entrar mesmo sabendo que se tratava de um sanguessuga pronto pra me destruir, de alguém com pouco, pouquíssimo, pra oferecer de volta, mas muito pra subtrair de mim. E ele subtraiu mesmo, na cara dura, sem sequer tentar fingir que se importava e que estava dando o seu melhor pra não me deixar na mão. E ele não tava não, nunca esteve, mas tava acabando com o meu. E eu sabia, todo mundo sabia, só que eu preferi fingir que não via o que estava acontecendo por medo de encarar aquilo tudo, só pra não precisar lidar com a merda que era ter confiado meu coração pra pessoa errada. 

Foi osso deixar a ficha cair e me dar conta de que eu tava mendigando por uma atenção que eu mesma estava tirando de mim pra dar pra outra pessoa. Era patético sofrer daquele jeito sabendo que eu tinha saídas próximas esperando por mim. Tudo o que eu precisava estava ali, ao meu alcance, esperando pra que eu pegasse e desse um jeito naquilo. Só eu podia me salvar, só eu podia fazer alguma coisa e me bastar sozinha, mas não conseguia porque tava dedicando toda a minha força e o meu tempo pra alguém que só sabia me retribuir com uma esmola pequena como se tivesse fazendo bem mais que a sua obrigação. Amor não é caridade. Mas na cabeça dele era. Por isso me retribuir com porções pequenas de afeto parecia ótimo, mas pra mim não era o suficiente, pra mim não era o bastante, pra mim não valia a pena.

Peguei a coragem que me restava junto da minha escova de dente e o meu disco preferido, enfiei tudo na bolsa e não olhei pra trás na hora de fechar a porta na cara dele. Não me senti obrigada, afinal, quantas vezes ele mesmo havia sido a porta comigo? Levei minhas sobras no bolso e cai fora sem pensar se aquilo era ou não o melhor pra mim, eu sabia que não importava, porque era o único jeito de salvar o que restava de amor próprio no meu coração. Eu mereço muito mais do que a boa ação de alguém que só consegue ter ações ruins, e não é dos outros que eu vou esperar isso não! Ninguém mais vai entrar na minha vida se for pra me preencher, porque agora quem vai fazer isso sou eu mesma. Que o próximo venha pra transbordar.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.