Nova Perspectiva

8 de junho de 2016

Sobre nós, mulheres

Dia após dia eles me perguntam quando e como eu vou me casar. E nunca teve muito critério, desde novinha já me perguntavam quem eu queria namorar e me incentivavam a disputar o coleguinha de sala mais cobiçado pelas mocinhas, tão crianças quanto eu. Acontece que eu nem sei se eu vou casar e olha que já não sou criança (na idade) faz um bom tempo.

Eles me disseram que eu tinha que me comportar, fechar as pernas para sentar, não usar roupa curta, ser mocinha. Ensinaram muito sobre prevenção, mas eu não podia ir pra aula de judô, isso era para os meninos. Para as meninas, balé ou axé bahia estava de bom tamanho - as mais ousadas faziam dança do ventre desde pequeninhas. 

Mostraram um mundo em que mulheres competem passivo agressivamente pelos homens. Acabou que com o tempo eu descobri que esses caras super "tops" dos rolês podem se esconder sob as capas de "caras legais" e acabarem nas histórias que serão debatidas por horas na terapia. Nem todo cara que parece ser legal o é. Assim como aquela mulher que você despreza com todas as forças pode ser uma pessoa super bacana e cheia de coisas em comum.

Nos filmes, me mostravam que casamento e encontrar um cara era a prioridade ou o ponto alto da vida das mulheres. Os homens desejados eram quase sempre inatingíveis, super interessantes e de erros perdoáveis. Eles eram os prêmios pelo esforço de ser bonita, inteligente e recatada (do lar!). Foi aí que eu comecei a me perguntar pra que eu precisava daquilo tudo: joguinhos, auto afirmação, toneladas de preconceitos, machismo e outras coisas. Comecei a debater com amigas, colegas e desconhecidas. Ouvi mais do que falei. Aprendi. 

Descobri que muitas pessoas passam pela mesma coisa que nós - algumas só disfarçam muito melhor os momentos de angústia. Todo mundo carrega nas costas as suas dúvidas e vontade de se jogar da ponte ao ouvir um absurdo enorme. Alguns pulariam da ponte, outros preferem empurrar o problema ponte abaixo. Mas aí é pessoal, depende se a pessoa é homicida ou suicida.

Comecei a contar para mulheres e meninas sobre a importância de se empoderar e quebrar todos os padrões. Perguntei como se sentiam em relações a tudo: família, trabalho, escola, faculdade, namoradinhos, maridos, filhos, sexualidade, orientação sexual, libido. Falamos sobre agressões, crimes e compartilhamos revoltas. 

Descobrimos, juntas, que somos muito mais forte do que imaginávamos - e sempre fomos. Antigamente não havia essa rede de apoio, não havia essa troca de experiências e acolhimento. Toda mulher é poderosa, algumas só não fazem ideia disso. Algumas me falaram o tanto que estavam quebradas por relacionamentos passados. Outras não aguentavam mais o assédio. E eram milhares de outras histórias e situações que por mais que mudassem os personagens, essas experiências tinham praticamente a mesma essência.

Busquei nas outras histórias motivos para ficar de pé e enfrentar o que está por vir. Encontrei mulheres que me explicaram sobre sororidade e empatia e sou muito grata por isso.

Eu sou o retrato da mulher atual, que recebe as informações, as digere e tira as próprias conclusões. Não dá pra viver calada e de boa em um mundo que segue com tantas injustiças contra nós. Eu sou você, eu sou sua irmã, eu sou sua mãe, eu sou sua filha, eu sou sua amiga, eu sou sua companheira. Eu sou a menina agredida, a menina triste, a menina abusada. Mas forte, muito forte. E agora, mulher. E com as outras mulheres me refaço, colo os pedaços quebrados e sigo na luta, ajudando outras que também precisam de apoio, conforto e quem sabe, uma nova amiga.

Um comentário:

  1. "me refaço, colo os pedaços quebrados e sigo na luta, ajudando outras que também precisam de apoio, conforto e quem sabe, uma nova amiga." TÃO EU! Amei o texto, me identifiquei em cada palavra.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.