Nova Perspectiva

26 de junho de 2016

O amor não é fast food

O amor não vem pronto. 

Sinto muito por começar esse texto desiludindo o seu coração "fast food". Mas, nada melhor para dizer verdades, que começar eliminando mentiras.

O fato é que o século XXI e o mundo contemporâneo deixou a gente acomodado. Todo esse lance de pessoa certa, alma gêmea e cara metade, só atiça ainda mais o nosso conforto de achar que o amor da nossa vida vem prontinho na forma da peça que faltava pra encaixar no nosso "quebra cabeça." E se não encaixar de cara, era a peça errada. "Próxima, por favor!". Mentira.

A verdade é que ninguém vem pronto pra encaixar na nossa vida. O encaixe é esforço mútuo de ceder. Eu corto esse pedacinho de mim e você corta esse de ti, e encaixa. Eu coloco um tijolo aqui, e você outro ali. Se constrói.

Ninguém nasceu feito pra gente, mas pode se fazer. Assim como ninguém nasceu médico, advogado ou estilista. Mas se formou para ser.

O problema é que no amor, ninguém tem paciência de se formar. Ninguém quer estudar e resolver os mistérios do outro. A gente espera por alguém que chegue com o diploma de "formado pra mim". Mentira.

Amor é construção. E a gente acrescenta tijolo e argamassa todo dia.

Começa frágil, mole, abstrato, sem muita resistência. E a gente não conhece muito bem as reações do outro e se a forma de pronunciar dele demonstra tristeza ou alegria.  Se ele está falando sério ou brincando. Se age por impulso ou empatia. Até que ponto vai a paciência.

Mas a cada tijolo colocado, a gente vai criando forma, e resiliência. E se aprende o jeito que o outro sorri espontâneo, ou sem graça. E o jeito que fala, cansado, ou com manha. E o jeito que chora, e põe a mão na cabeça. E o jeito que gosta do toque, do café e do cafuné. O tom de voz e a imponência.

E o relacionamento vai ficando mais concreto. E se aprende o que o outro come de manhã. E o humor com que acorda. E o peso do sono. E o que agrada e desagrada. E como se aquieta depois de um dia corrido, e o que faz pra relaxar. E a gente começa a acumular conteúdo nessa matéria tão complexa que é conhecer alguém.  E estuda o olhar. E decora o cheiro. E passa pelas provas,

Porque amor de verdade tem que ser provado. E a veracidade só se é provada quando se resiste.

Resiste aos abalos sísmicos dos choques de humor. Dos jeitos de falar. Das formas de pensar. Do jeito que o outro expressa tristeza, ou frustração. Todo dia, sem querer, a gente pode machucar. Todo dia, a gente pode entender errado. Todo dia, uma palavra mal dita pode ferir e afastar. Todo dia, a gente corre risco de se arranhar. Todo dia, a nossa construção pode ter alguns andares demolidos. Mas amar é estar sempre disposto a colar o que se partiu, em vez de abandonar num lote qualquer e trocar por outro.

Amor é quando a gente escolhe pegar a argamassa e juntar tudo de novo. E assentar os azulejos. E tapar os buracos. E impermeabilizar as superfícies.


O amor não é pros covardes, entendi. O amor é pra gente grande, e valente.

É olhar pro outro muitas vezes com aquele receio e impulso desesperado de correr pra longe e dizer que não dá. Mas, ficar, e encarar de frente.
É dizer algo duro que tem que ser dito. E ouvir algo duro que tem que ser ouvido. Depois permitir o coração ser mole e derreter ao ver o sorriso do outro, acreditando que, enquanto existir isso, fazem-se uns ajustes e no final fica tudo bem.

Benditos ajustes que ainda são usados por quem acredita que relação a gente conserta, não joga fora. O amor é de quem conserta. Quem joga fora nem tem tempo de amar. Nem sabe usar a oportunidade. Porque as maiores brechas que a vida dá pra se aprender a amar alguém é quando nem tudo está funcionando como a gente gostaria. Mas mesmo assim, a gente fica.  E tira todas as ferramentas da maleta, quantas vezes forem precisas.

Amar o fácil todo mundo consegue. Amar o que agrada e o que apraz. Amar o que é do nosso jeito e gosto. Mas amor de verdade mesmo é aquele que a gente aprende a cultivar até pelo que não era como a gente esperava. Até no momento que o outro foge do padrão. Até quando ele não age tão bem assim. Aprende-se a amar quando não se ama por que. Mas, apesar de.

Aprende-se a amar quando se aprende a perdoar. A ceder. A lutar.  Aprende-se a amar quando se aprende a aprender. Todos os dias. Seja lá o que.

O amor não vem pronto.
O outro é matéria que a gente estuda pra sempre.
Escolha alguém que esteja disposto a te ensinar, e se formar do seu lado.
Da graduação e pós a mestrado e doutorado.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.