Nova Perspectiva

17 de junho de 2016

Duas e meia da manhã

— Oi.
— Oi...?
— Tudo bem?
— São duas e meia.
— Eu sei...
— Da manhã! São duas e meia da manhã!
— Eu ainda tenho relógio!
— E o meu número.
— E o seu número...
— O que foi?
— Não sei, acho que bateu saudade.
— Saudade?
— É. Da gente, sabe? Bateu muito saudade da gente.
— Do nada?
— Do nada.
— Às duas e meia da manhã?
— Sim. Tenho insônia, lembra?
— Não é insônia, é excesso de cafeína. 
— Pode ser também.
— Não acredito que ainda não aprendeu a dosar sua quantidade de café.
Não acredito que ainda não prendeu que eu não abro mão do que gosto.
— Abriu de mim.
— Não abri não.
— Não?
— To te ligando agora.
— Depois de dois meses.
— Mas to ligando.
— Às duas e meia da manhã.
Cacete, você já falou isso.
— Você sabe que eu detesto que me acordem a toa.
— Não vai ser a toa morena.
— É difícil de acreditar.
— Achei que você ia trocar de telefone.
— Eu ia, foi falta de tempo.
— Não mente.
— Não to.
— Tá sim, cê não trocou porque tava esperando.
— Esperando o que?
— Esperando eu te ligar.
— Talvez meu subconsciente.
— Nada, foi bem racional.
— Que seja.
— Que seja...
Duas e meia da manhã...
— Já entendi! Porquê você não para de repetir isso?
— Simples, são duas e meia da manhã e você ainda não tá aqui comigo, cê acha que eu vou esperar pra sempre?
— Então levanta.
— Que?
São duas e cinquenta da manhã.
— E?
E você ainda não abriu a porta.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.