Nova Perspectiva

3 de maio de 2016

Sobrevivo da sua falta

Olho em volta do quarto procurando por algo que eu não sei dizer bem o que é. Talvez seja você. Talvez sejam as lembranças que impregnaram em cada canto que o seu cheiro ficou ou o passado que parece ainda estar aqui, vivo nos papéis de parede que escolhemos juntos no último verão. Mas não há mais nada. Não há nada que eu possa encontrar pra preencher o vazio que tem ecoado aqui dentro de mim. Nada que vá sanar a dor que se alastra pelos meus músculos e que corrói as minhas artérias como um veneno me pondo de cama à toa, esperando a vida passar enquanto o caos permanece e destrói que ainda restou em pé.

O escuro desperta os nossos fantasmas e eles me assombram, perseguem, machucam, enquanto passeiam pelo teto vociferando em silêncio que eu não vou conseguir esquecer. Não tão rápido, não tão fácil. E ali estamos nós, apaixonados, bobos, expelindo a inocência de quem acredita que o pra sempre pode ser a vida toda. Nos vejo rolando nus no tapete que trouxemos da Espanha. Cê lembra? Por debaixo da minha pele e da minha carne e dos meus ossos o meu coração bate devagarinho, cansado de se esforçar de mais por quem só faz de menos. Fecho os olhos tentando espantar a saudade, mas ela me agarra, se ajeita ao meu lado na cama e ocupa o seu espaço.

Eu só queria te achar por aqui, mesmo que fosse de passagem procurando por uma blusa esquecida, por aquele seu disco velho, ou, quem sabe, pelo nosso amor perdido. Mas você não vem porque tudo o que ficou já não tem mais importância na sua nova vida, inclusive eu. Repito exaustivas vezes sem que nenhum som escape que isso vai passar, tudo isso, eu sei que vai. Em algum momento, porque é preciso que passe. Só não sei se eu aguento esperar. Só não sei ainda tenho forças pra lutar contra o choro que asfixia o meu peito. A sua falta sobe e entala na garganta e ela não sai até que eu enfie o dedo e vomite todo amor que não quer ir embora.

Coloco você pra fora, como cê fez com as suas malas antes que eu acordasse e te implorasse pra ficar, porque a gente ainda podia fazer ser diferente. Não podíamos? Mas você volta e atormenta minhas noites como se eu tivesse culpa pelo mundo ser mais interessante do que eu fui na sua vida. Você volta em pesadelos que me fazem revirar assustada na cama, em devaneios que alimentam a minha insônia, em ilusões que morrem quando abro os olhos e vejo que continuo sozinha. Não há nada pra ser visto, nada que eu vá achar e mudar o rumo dessa história. Você já fez a sua escolha.

Tento uma última vez, antes de desistir e ceder pro choro que grita implorando pra sair. Tateio em volta buscando pela sua mão quente, que me protegia nas noites em que nada fazia muito sentido, como hoje, mas só o que eu encontro é o espaço vago que o seu corpo deixou. Oco, vazio. Igual a sua alma.

*imagem via weheartit

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.