Nova Perspectiva

15 de maio de 2016

Sobre as palavras que eu não digo


Hoje eu acordei querendo fugir de você. Eu até planejei um discurso. E quis escrever uma carta. E arranjei uns dez motivos pra ir embora sem você puxar meu braço. "Eu tenho uma doença contagiosa e preciso me isolar." - Não, esse não. Mas eu podia inventar um nome de doença. Tem tanta doença por aí que a gente nem sabe. Eu podia... Mas, não. Doença não. Um parente, morto. Não, muito trágico. Já sei, uma tia avó velha e doente precisando de cuidados no Nordeste. Não. Isso é muito ruim. Eu nem tenho uma tia avó no Nordeste. Eu nem sei se eu ainda tenho uma tia avó. Esquece a tia.

Quem devia fugir é você, tô falando. Eu nem sou tão legal assim. E deve ter no mínimo uma dúzia de meninas mais interessantes por aí. Melanina escassa. Cabelo opaco. Olho comum. Tem nada demais não. Já vi várias, inclusive, mais magras. Cê já viu como meus braços são redondos? Eu nem uso mais regata. Por que você não procura alguém que pode usar regata? Deve ter, uai. E elas nem vão fazer todo esse drama.

Eu tô levando pouca coisa na mala, eu perdi muito pelo caminho. Eu já fui melhor que isso, rapaz. Eu nem sempre fui tão hard. Eu nem sempre fui tão dura assim. Meu coração de rock já foi bossa nova. Já foi blues. Eu desafinei. Mas você me faz querer cantar.  Você sabe tocar direito os meus acordes. Você muda o meu tom. Você me faz querer ficar e isso me assusta pra dedéu. E eu sei que dedéu é uma expressão ridiculamente brega.

Aí sempre que eu vejo que eu tô quase ficando, eu arrumo as minhas malas. Eu deixo um bilhete no travesseiro. Eu dou piti. Eu vou embora porque eu já não sei ficar.  Eu já não sei sentir o que eu sinto, cara. Me ajuda. Eu até rio sozinha pensando no teu queixo furadinho. Isso não é um motivo suficiente pra sair correndo? Devia ser.

No amor, eu sou roteirista. Eu não sei ser personagem. Eu desaprendi a ser protagonista. Aí vem você com essa pose de galã e quer me fazer ser a mocinha do romance.  Dá licença. Não pode ser assim. Tá apelando. Essa cara de bom garoto tá persuadindo minha resistência. Sai. Não me olha assim. Eu não tenho uma tia avó, mas eu posso inventar um primo no Amazonas. Eu posso.

Se eu ficar, eu não vou mais saber ir embora. Se eu ficar, eu vou criar raiz. Eu vou ser flor do teu jardim. E eu sei que você me regaria de afeto todos os dias. Eu sei. Eu sei... Mas, eu tenho espinhos. Eu tenho pétalas rasgadas. Eu não sei se sou lá flor que se cheire. Mas você cheira. E rega. E cuida.

Ora, vamos... Olha bem pra mim. Eu tenho uma perna maior que a outra. Já viu? Eu sou até fanha às vezes. E meu nariz tem um carocinho bem estranho. Eu dou risada quando não pode. Eu durmo e deixo você falando sozinho. Eu sumo. Não dou notícia. Te deixo preocupado. Foge. Ou me deixa ir. Me trata mal. Me dá um motivo pra abrir a porta. Me diz que eu sou mesmo meio estranha. Me diz alguma coisa ruim pra eu criar coragem de sair.

Eu tô perdendo as pétalas do "mal-me-quer", eu tô ficando sem defesa. Eu tô ficando sem desculpas. Deixa eu ir embora enquanto eu posso. Deixa eu continuar escrevendo histórias de amor e fugindo de vivê-las. Eu juro que escrevo sobre você nas segundas e quintas. Agora, corre pra longe de mim, antes que eu não queira mais sair do teu abraço e desprender minhas mãos do teu quadril.

Deixa eu sorrir calada quando você diz que me ama. Deixa eu digitar e apagar o meu afeto. Tem três palavras que eu nunca disse pra você. Mas, agora, eu digo quatro: Foge que dá tempo.

Ou, me dá alguma desculpa pra não achar você uma ótima ideia. Me deixa pensar em algo pra me justificar. Eu gasto minhas horas pensando em motivos bons o suficientes pra combaterem um só que me prende: Em meio ao me desespero de querer ir embora, você me dá vontade de ficar.

E danem-sem as tias avós.

(Eu nem tenho).

*imagem via reprodução

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.