Nova Perspectiva

17 de maio de 2016

Resposta para a carta da amante.


Sabe, eu confesso que não esperava receber uma carta sua. Abrir aquela correspondência de tom fosco, levemente depressivo e descobrir quem a enviara foi quase que um golpe na boca do estômago. E eu já não esperava. Não mais um golpe diante de todos outros que já levei nas últimas semanas.

Eu confesso que te odiei ainda mais quando me perdi nas linhas que compunham os teus escritos. Te odiei e me odiei. Te odiei, porque você sempre soube. Você sabia da minha existência, sabia que todas as noites antes de dormir eu criava planos e planos para nós dois, você sabia que eu o amava. E ainda assim ousou intrometer-se na nossa história. Ou pelo menos era assim que eu pensava. E, dessa forma, tentava descarregar em você uma culpa que no fundo nunca foi sua.

Depois me odiei também. Como eu não percebi que havia outra? Como eu podia ter sido tão ingênua? Como? Dias depois, mais calma eu haveria de achar as respostas para todas aquelas perguntas. Era amor, paixão e coisas do tipo. Talvez no fundo eu já soubesse, só não me permitisse aceitar. Eu notava as desculpas, os atrasos, as intermináveis reuniões, o celular constantemente bloqueado, o perfume diferente nas roupas dele. Eu notava a sua ausência.

Há quem diga que o amor é cego, discordo. Eu digo que é a paixão quem venda os olhos, engana e é seletiva, quando só nos permite ver o que nos convém.

Eu precisei de (incontáveis) dias para acalmar toda aquela tempestade de sentimentos que havia se formado dentro de mim. Era difícil de explicar, mais difícil ainda entender. E eu só conseguia sentir. E por outros longos dias eu senti muito, muito, muito mesmo. Passei por todas as fases do luto, da negação a aceitação, porque dentro de mim ele havia morrido. Admito que por vezes pensei que não o superaria. Enterrá-lo foi mais doloroso do que eu imaginava ser capaz de suportar. Mas eu sobrevivi. E digo com orgulho de quem sabe a luta por que passou que eu superei. Eu o superei. E superei também você e a mágoa, o ressentimento, a raiva, o ódio. Superei qualquer rua que tivesse levado às nossas histórias a se cruzarem, superei qualquer vínculo que pudesse existir entre nós.

Os teus motivos eu não procuro entender e nem poderia. Não sou nobre a tal ponto. Já não te culpo, não me culpo, não o culpo. Talvez precisasse ser assim. A ele só posso dizer que lamento as escolhas fez, infelizmente nem todos possuem caráter para honrar um compromisso e já dizia minha vó: quem muito escolhe com nada fica. E definitivamente quem saiu perdendo não fui eu. Quanto a você, que a sua vida siga e que você descubra o valor de um amor que vem por inteiro. Boa sorte.

Texto da Rilciane Reis. Ganhadora da resposta para a carta da amante.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.