Nova Perspectiva

22 de maio de 2016

Presenta do passado


Olho para o lado e ali está ele, dormindo todo esticado no sofá maior enquanto eu giro a poltrona em 360 graus completos na tentativa de vivenciar de fora essa cena. Ele sorri, como se estivesse feliz demais pra sonhar com algo que não fosse tão bom quanto a realidade, e eu sorrio de volta, mesmo que ele não me veja, porque a realidade é muito melhor do que qualquer sonho. Porque os dias já foram nublados e a vida meio tempestiva, e aqui dentro já doeu pra cacete. E eu já achei que não ia dar conta de juntar todos os meus caquinhos pra recomeçar mais uma vez. Porque eu me enfiei em muitas histórias que estavam na cara que dariam errado só pra ter alguém pra me completar. Engano tolo, a gente não se completa com qualquer migalha, nem com os outros.

Analiso o calendário do celular, faltam menos de 30 dias para o ano acabar, há 330 dias, mais ou menos, eu não era eu. Eu não tinha os mesmos planos que alimento agora, não tinha a mesma coragem que criei ao longo dos meses, não tinha essa segurança de quem sabe que nunca vai estar sozinha. Há um ano eu procurava desesperadamente pelo amor da minha vida. Olho mais uma vez pra ele adormecido nas minhas almofadas de algodão e sinto vontade de correr até lá e deitar ao seu lado e mergulhar no mesmo lugar em que seu inconsciente vaga, mas permaneço girando a poltrona. 

Eu não encontrei o amor da minha vida como nas histórias de amor, nem como nos filmes de comédia romântica, a gente não cruzou a mesma esquina e nem trocou risadas e o telefone numa dessas festas sem graça. Eu encontrei o amor da vida enquanto chorava descontroladamente pelo ex-amor na minha vida, depois de mais um porre e uma enxurrada de mensagens sem resposta. Eu encontrei pelo amor da minha vida quando olhei no espelho e reconheci ali, naquela imagem de uma mulher destruída, o que eu tanto tava buscando em outros corpos.

Depois ele apareceu, já chegou mostrando ao que veio, deixou claro desde o início que vinha pra ficar, e ficou. Mas não foi porque nos completamos e unimos nossas metades da laranja, foi porque a gente transbordou. E amor é isso: quando a água não cabe mais dentro do copo e cai pra fora. Preencher o copo é responsabilidade sua. Eu fui aprendendo meio que na marra que precisava fazer isso sozinha, que a minha felicidade não podia depender de ninguém. Sou eu quem me faço feliz. Olho pra ele, mais uma vez, e me enfio no meio dos seus braços. Ele é só mais um motivo pra que o sorriso não saia da minha boca. Um ótimo motivo.

3 comentários:

"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.