Nova Perspectiva

19 de maio de 2016

Eu não sou mais a mesma


Oi moreno, como é que vão as coisas por aí? Aqui está tudo muito diferente. Eu sei que faz tempo que não te escrevo, mas é que esses dias passei por você na rua e te vi me olhando com o semblante meio desconfiado, como se tentasse entender o que é que tinha acontecido comigo. Desculpa não ter te dado atenção, é que eu tava apressada demais e não deu pra parar e te explicar como a minha vida tem mudado. Eu sei, se fosse em uma outra época não importaria o compromisso que eu tivesse agendado, teria desmarcado só pra ficar e você me convidar para uma cerveja ou duas. Só que dessa vez não deu. Já tem um tempo que não tem dado. Eu cresci, mas não foi só isso, então resolvi por meio de mais uma carta te contar como é que está minha vida.

Desde que você foi embora eu comecei a arranjar maneiras de expulsar a dor de mim, comprei alguns livros de autoajuda, comecei a seguir os conselhos das minhas amigas e tentei me encaixar no maior número de compromissos que pude. No começo até funcionou, mas com o tempo os livros foram acumulando, os conselhos ficaram clichês e os compromissos não faziam mais tanto sentido, então eu acabei percebendo que não importava o quanto eu lutasse, no final de cada domingo ainda era você que alfinetava meu coração e me fazia chorar escondidinha embaixo do edredom. Nada daquilo resolvia. Quanto mais eu me forçava a parecer feliz, mais sujeira acumulava dentro de mim. Até que eu explodi. Voou pedacinhos de mim por cada cômodo, a coisa ficou feia, achei que nem conseguiria arrumar, mas também não dava pra jogar de volta pra baixo do tapete. Eu precisava fazer algo, por isso resolvi que iria reformar a casa.

Talvez essa tenha sido a decisão mais difícil da minha vida, e cê sabe que tomo decisões difíceis todos os dias, desde a cor da calcinha até qual a melhor exportadora pra fechar contrato. Falando em trabalho, essa foi uma das primeiras mudanças: resolvi jogar tudo pro alto. Sim, é isso mesmo! Larguei o emprego e passei a me dedicar praquele sonho de ser escritora, eu sei que você achava isso tudo uma grande besteira porque no Brasil a gente não enche barriga com poesia, mas você já não estava mais aqui pra achar coisa alguma. Pra escrever eu precisava de um lugar, resolvi usar o quarto da bagunça. Joguei fora um monte daquelas suas tranquelhas velhas, junto delas foram algumas lembranças nossas. Foi preciso, já tinha passado da hora de desocupar alguns lugares pra preencher com coisas novas. E eu amo coisas novas. Sempre amei. Amo aquele cheirinho, o frio na barriga, a expectativa.

De nós só restou uma foto, o primeiro ursinho que você me deu e a nossa aliança de namoro. Enfiei tudo em caixa e coloquei no fundo do armário. Alguns falaram que eu deveria me livrar daquilo também, sem deixar espaço pra fantasma, mas eu tinha decidido fazer tudo de acordo com aquilo que eu acredito. E acredito que não é porque deu errado que a gente precisar excluir tudo o que viveu. Te guardei, não pra reviver, pois isso eu não quero mais, mas pra lembrar que apesar de tudo teve um momento em que foi por causa de tudo. Fomos. Depois que eu mudei os móveis de lugar, pintei as paredes e vaguei espaço, era hora de completar a reforma. Cortei o cabelo e tingi de ruivo. Você detestaria. Eu amei. E então me dei conta de quanta coisa eu deixei de amar pra poder continuar amando você. Este foi o grande start, aquele momento em que tudo faz sentido.

De uma hora pra outra todas aquelas peças soltas foram se encaixando, feito um quebra-cabeça em que só faltava um pedaço e ai ele, de repente, ele está ali, quieto, sereno, bem de frente pro nosso nariz. Ai a gente pega, coloca no lugar certo e tcharan, tá feito, tudo se clareia e a gente consegue enxergar a figura que parecia incompleta. Eu vi, naquele instante, naquele segundo mágico, eu vi que não era ser escritora, nem reformar a casa, nem pintar o cabelo que tinha me mudado, era eu que tinha me encontrado. Era eu que tava perdida desde o momento em que achei não ter problema me esconder um pouquinho pra você ter mais espaço. Não, eu não to dizendo que a culpa foi sua. Ela foi minha. Toda minha. Eu que quis insistir em quem só queria me mudar e deixei que você fizesse isso pelo medo imensurável que eu tinha de te perder. Mas nada, nem mesmo todas as vezes que eu abri mão de mim mesma, te fez ficar.

Você foi embora e eu sequer pude te culpar por isso, afinal, eu mesma já tinha me abandonado a muito mais tempo. Já tinha aberto mão de ser quem eu era, de sonhar os meus sonhos e de viver a minha vida só pra poder viver a sua. Quando a ficha caiu eu me dei conta da merda que tinha feito. Amor algum merece que abramos mão de nós mesmos pra vive-lo. Me peguei de volta pra mim e eu já não sou mais a mesma que você moldou, porque agora eu sou quem eu sempre fui. Sou a escritora louca que abandona tudo pra viver com a cabeça na lua. A doida que estraga o cabelo porque sempre quis ser ruiva. A fanática por organização que já não suportava mais tanto entulho amontoado. A mulher que você nunca foi capaz de amar, mas que eu tenho amado cada dia mais.

Um comentário:

  1. Sou a mulher que você nunca foi capaz de amar. mas que eu tenho amado cada dia mais.
    Assim como amo seus texto Gaby <3

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.