Nova Perspectiva

14 de maio de 2016

Eu não aceito mais migalhas

Já me contentei em receber muito pouco, pouquíssimo, de alguém pra quem eu dava tudo. Pra dizer a verdade já cheguei a achar que seria feliz mesmo sendo retribuída com quase nada, e isso foi me consumindo com o tempo. Chegou uma fase em que eu precisei tirar amor de mim pra manter viva algumas relações, mas como eu não recebia o suficiente em troca acabei definhando, fiquei vazia por dentro. Foi terrível. Quando a solidão grita no peito e faz eco a gente se dá conta de que chegou ao fundo do poço. Eu cheguei. Ultrapassei. Fui além. E sofri. Chorei, gritei, fiz birra. Achei que na marra ia conseguir me salvar. Não adiantou. Por mais que eu tentasse, continuava inerte, apática, esperando um milagre finalmente me salvar de mim mesma.

É difícil estar lá, tão fundo, tão só, e não saber como fazer pra voltar. Não tinha um mapa, nem setas, nem uma escada. Não tinha alguém pra me guiar. Só tinha a escuridão. E o medo. E um desespero horrível de ter perdido todas as minhas chances de ser feliz. Mas eu fui forte, sequei as lágrimas que escorriam pelo meu rosto e me proibi de achar que eu não seria capaz de me curar. Eu era. Eu fui. Então eu comecei a escalar, fui subindo tijolo por tijolo, segurei o choro, segurei a barrar e venci cada escorregão que eu quase dei, mas consegui recuperar. Venci cada vez que eu quase desisti, mas persisti. Cada instante que eu quis jogar tudo pro alto e me jogar pra baixo, mas fiquei. Fui mais forte que a dor que se alastrava pelo meu corpo e pela minha alma. Fui maior que a vontade de deixar tudo do jeito que estava. Eu precisava ser.

Eu não tinha outra opção além de cair fora dali e eu queria sair inteira, recolhi meus pedacinhos, amarei meus trapos, coloquei tudo nas costas e deixei pra trás o que já não me servia mais. Esqueci os pesos desnecessários, as histórias incompletas que eu cismava em tentar preencher, esqueci essa ideia de que a gente precisa ter alguém pra conseguir ser feliz. Não precisamos. A nossa felicidade tá nas nossas próprias mãos. Só eu tenho o poder de definir a minha. Hoje eu sei. Sei, também, que amor não é mágica, por isso não adianta ir em quem “traz o seu amor de volta”, nem fazer promessa ou virar o Santo Antônio de cabeça pra baixo, quando ele tem de acontecer, acontece. Não adianta lutar contra, ou brigar a favor. Se não for amor, não vale a pena continuar tentando fazer ser.

Uma hora acontece, por isso eu tenho calma e deixo a vida seguir em passos leves, já tive pressa demais, já criei calos e decepções, agora eu quero viver uma história tranquila, e ela vem, eu sei que vem, dia desses, em qualquer um deles. Talvez eu o encontre enquanto atravesso a rua, a gente se esbarre, se olhe e se perca, de um jeito bem clichê, igual filme americano. Talvez seja o cara que pega o ônibus todos os dias comigo e senta ao meu lado, talvez a gente comece a conversar numa sexta-feira de chuva e descubramos que temos a mesma banda favorita. Vai saber? Pode ser o moço da recepção do inglês, o meu chefe, pode ser muita gente. Eu não sei quem vai ser, mas eu sei que ele vai estar inteiro, completo, pronto pra transbordar comigo, porque eu não aceito mais quem só tem migalhas pra depositar em mim.


*imagem via reprodução

2 comentários:

  1. Eu não sei quem vai ser, mas eu sei que ele vai estar inteiro, completo, pronto pra transbordar comigo, porque eu não aceito mais quem só tem migalhas pra depositar em mim.
    A melhor sensação é saber disso!

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  2. Eu não sei quem vai ser...eu estava precisando tanto ler esse texto.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.