Nova Perspectiva

7 de maio de 2016

Dessa vez sou eu quem to te colocando pra fora

Você passeia com os dedos pelo porta-retrato em que ficava a nossa foto e me olha com cara de desconfiado, como se perguntasse onde é que ela, a foto, está. Eu a queimei moreno, dois dias depois que você foi embora. Junto dela também foram as nossas lembranças e o moletom velho que você esqueceu no fundo do armário. E nem me venha com esse discurso de reprovação, cê sabe muito bem o porquê que eu fiz isso. Foi necessário pra me salvar do nosso fim. Não tinha outra maneira de acabar com tudo. E não fui eu quem escolheu que fosse desse jeito.

Foram dias difíceis os que se seguiram à sua partida, teve noites em que eu achei que não suportaria tanta dor dentro de mim. Talvez a gente não morra mesmo de amor, mas a nossa alma morre. A minha quase morreu. Quase. Mas eu não deixei, não podia, entende? Então passei a lutar. A casa estava um caos, assim como o meu coração, e eu tive de arranjar forças pra poder colocar tudo de volta no lugar. Apaguei as suas mensagens, não fazia mais sentido guarda-las só pra ficar relendo. Era masoquista. Comprei um aromatizante diferente pra cada cômodo, levou uns dias, mas consegui me livrar do seu cheiro. Pra terminar eu precisava me libertar de você também, e essa foi a parte mais difícil.

Cada canto em que eu andava me lembrava de nós dois. Tinha um pedaço da nossa história pendurado em casa parede de casa. Estávamos naquele bonequinho indiano que trouxemos da última viagem, naquela xícara de casal que ganhamos de uns amigos, no disco do Gilberto que compramos no centro da cidade. Estávamos espalhados, dispersos, mas vivos, e eu precisava nos matar. Coloquei tudo dentro de um saco, tirei as fotos, os presentes, e o passado dali de dentro, levei pro quintal e fiz uma fogueira, fui jogando nós dois ali dentro. Depois que acabei e olhei pro vazio que tinha restado, percebi: não tinha mais volta. Ali eu havia feito minha escolha, e eu escolhi te despejar de mim.

Chorei por algumas noites depois, madrugadas em que eu me questionava se tinha feito a coisa certa. Eu fiz. Agora sei. Conforme os dias passavam, a dor foi passando também. Não restou nada além de um espaço livre dentro do meu peito. Minha vida finalmente estava limpa. Então você reapareceu. Agora cê me pede um café e eu questiono que horas é que você vai embora. A casa não é mais sua, nem eu. Pode esquecer teu papinho mole, suas desculpas ensaiadas e tudo aquilo que você queria me dizer. Eu não vou ouvir. Não mais. Esperei, e como esperei, por uma explicação, um pedido de desculpa, uma mensagem que fosse, mas nada chegava. Nada. Ficou tarde demais pra isso tudo.

Eu cansei de esperar quando me dei conta de que tava perdendo o meu tempo, acabei percebendo que você não valia todo o cansaço que aquilo estava me causando. Por isso pode nos poupar de mais essa, pega de volta seu discurso barato, nem tentas tua lábia comigo, a porta já tá aberta, escancarada, te convidando pra sair. Dessa vez sou eu quem to te colocando pra fora de casa e da minha vida. Pra sempre, até nunca mais.

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