Nova Perspectiva

19 de maio de 2016

Deixa eu amar você


Ele me olhava com o semblante inquieto, como se tivesse com algo prendendo sua garganta que o sufocava mais a cada instante que seguia. Abaixei o volume da televisão e o fitei, esperando que ele falasse algo, mas o silêncio permaneceu até se tornar ensurdecedor. Não suportei e decidi por quebra-lo eu mesma.

— Anda vai... diga o que está havendo com você, o que é que está te incomodando tanto? – Questionei com o tom da voz parcialmente irritado. Detestava quando ele criava aquela atmosfera de mistério.
— Como assim?
— Esse jeito que você está me olhando, como se tivesse muita coisa pra dizer, mas não soubesse como.
— Não tenho nada pra falar.
— Nada? Tem certeza?
Nada que vá te tirar da defensiva.
— Que?
— Isso mesmo que você entendeu Júlia.
— Isso o que, caramba? Eu não entendi nada.
— Acho que eu vou pra casa.
— Ah, mas não vai mesmo!
— Eu não te entendo, sabe?
— Bem-vindo ao time.
— Argh...
— Que foi?

Ele revirou os olhos como se eu não tivesse que estar fazendo aquela pergunta, levantou do sofá e caminhou até a janela. Ficou certo tempo olhando pra fora, procurando por alguma coisa que não estava ali, mas que ele precisava achar com urgência. Uma urgência asfixiante, que estava me tirando o ar. Fiquei ainda mais irritada.

— Vamos Thiago, diga logo o que está acontecendo.
— Eu não to mais suportando viver dentro dessa bolha em que você se enfiou. Não tá dando pra mim!
— Que bolha? O que você tá querendo dizer? Seja mais direto!
— Mais direto? Então vamos lá. Talvez você tenha assistido demais esses filmes americanos, eu não sei se é isso ou sei lá o que, mas alguma coisa te transformou nesse personagem mecânico, automático.
— Eu já era assim quando você me conheceu.
— Era. E eu amei esse teu jeito misterioso, como se tivesse um milhão de coisas por trás desse teu olhar de Capitu, mas o tempo foi passando, passando, passando e você continua a mesma. Juro que eu acreditei que seria capaz de atravessar essa sua barreira, mas você é impenetrável, parece que tem um mundo a parte que é só seu e não cabe mais ninguém. Nem eu. E to cansado de viver nas beiradas esperando uma chance de me acomodar melhor. Você não vai se abrir e tudo bem, talvez haja um motivo muito sério pra cê ter se trancado desse jeito, mas eu não sou obrigado a continuar aqui, não sou obrigada a permanecer perdido nessa encenação toda. Você não é o que demonstra ser e eu não posso ficar com alguém que eu não sei quem é.
— Eu achei que você me amasse.
— Eu te amo.
— Mas tá indo embora.
— Ir, às vezes, é um ato de amor.
— Amor?
— Sim. Não basta só eu amar, se não é reciproco não tenho razão pra estagnar nossas vidas.
É reciproco.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Então explica.
— O que?
— Isso tudo.

Encarei meus próprios pés tentando buscar por algo que fizesse tudo o que tinha em mim fazer sentido. Mas por mais que eu pensasse e pensasse e pensasse minha mente continuava uma bagunça, um caos assustador que formou uma tempestade em meus olhos. Comecei garoinha, pingando de pouquinho em pouquinho, até me desfiz e soltei o corpo caindo aos prantos. Chorei desesperadamente enquanto ele me olhava estático, sem saber o que fazer. Não havia nada, eu precisava me acalmar sozinha. Respirei fundo, mas não lutei contra o tsunami que me atravessou, deixei que ele passava e lavasse cada canto da minha alma.

— Eu não sou boa o bastante pra você. Não sou boa o bastante pra ninguém.
— Você não sabe do que está falando...
— É claro que eu sei! Você é maravilhoso, merece alguém muito melhor, alguém que possa ser inteira, que não tenha medo.
— Medo do que?
— De despedaçar de novo, de voltar a ser caquinhos pequenininhos espalhados numa solidão fria, doída.
— O que te machucou tanto?
— Não foi o que, foi quem.
— Eu deveria ter imagino isso, era tão óbvio. Como eu fui burro! Você tá ferida, sempre esteve...
— Não, eu não estou ferida.
— Não?
— Não! Eu me curei. Me curei depois de ter uma hemorragia interna de tanto desperdício de amor e achar que eu nunca mais estaria livre de tanta amargura. Mas eu me livrei, vomitei toda a minha dor e expulsei de mim tudo o que me maltratava. Eu curei cada machucado, cada um deles. Tratei de todos os meus pedacinhos até tudo virar só um arranhão. Um arranhãozinho, sabe? Que não deveria diferença nenhuma, mas faz! Faz porque ele grita o quanto eu já sofri, queima cada vez que eu sinto que você se aproxima mais. Ele apita, como um sinal de emergência, todas as vezes em que eu me pego distraída, frágil, deixando você me invadir.
— Eu não vou te magoar. Confia em mim.
— Eu quero. Juro! Mas sabe aquele ditado do gato escaldado? Então, eu não tenho medo de água fria, mas tenho pânico do amor.

Ele não disse nada, mas foi se aproximando devagar, passo após passo, como se tivesse tomando cuidado pra não me assustar e me fazer fugir. Eu queria correr, me esconder, manda-lo embora e pedir pra que não voltasse nunca mais. Mas continuei parada, olhando fixamente praqueles olhos acobreados, quentes, que me envolviam num abraço imaginário. Ele foi chegando cada vez mais perto, conforme nos aproximávamos meu corpo foi se enrijecendo, um arrepio interno me percorreu, como se eu tivesse levando um choquinho inofensivo que me fez tremer da cabeça aos pés. Soltei um suspiro profundo, longo, e deixei que suas mãos me tocassem e me puxassem pra mais perto. Fui, ainda dura, e me soltei quando me encostou em seu peito. Eu tava segura. Pela primeira vez em anos eu estava segura.

— Deixa eu cuidar de você. Deixa eu atravessar essa sua bolha e provar que pode dar certo, que o mundo é imenso e que pode ser a gente. Deixa eu sarar sua cicatriz, apagar seu arranhão, dissipar seu medo. Deixa eu ficar, aqui, agora, pra sempre dentro de você. Deixa eu te fazer sentir que tudo tem sentido, e que é mais fácil do que imaginávamos. Deixa eu ser sua paz, sua calma, sua segurança. Deixa eu amar você.

Encarei-o sem saber ao certo o que responder, sorri, de dentro pra fora, e não engoli a felicidade que começou a brotar no meu peito, deixei com que ela fosse crescendo e crescendo e crescendo até transbordar e eu ter certeza do que queria. Fui me aproximando do ouvido dele, me enlacei em seu pescoço e sussurrei no ouvido dele: deixo, meu amor, eu deixo.

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.