Nova Perspectiva

18 de maio de 2016

Aquele abraço para o padrão de delicadeza e elegância da mulher brasileira: somos plurais


Se sentia alheia a tudo: os jornais só davam notícias que não queria ler ou que preferia que fossem do Sensacionalista. Estava tudo caótico: o Brasil, a vida acadêmica, a vida profissional, a amorosa. Sorria no fim do dia para os grupos de whatsapp que pipocavam com constatações, dúvidas e sororidade espalhada pela rede. Mas ainda assim, se sentia estranha. Mesmo ouvindo histórias de quem estava passando por momentos parecidos, mesmo compartilhando seus medos, angústias, desejos e possíveis soluções. Ainda achava que nunca ia sair do lugar.

Porque né, ensinam para a gente desde cedo que o sucesso tem uma regra cronológica e de conquistas óbvias, só que nem todo mundo chega nelas em tempo hábil para ser parabenizado. A demora pelo tão sonhado diploma lhe tirava o sono. As poucas conversas que conseguia manter por mais de dez minutos eram sobre coisas da vida. "Quero ser planta na próxima vida" - achava que fazer fotossíntese diariamente fosse menos trabalhoso que levantar da cama e se arrastar para o dia que estava por vir.

Ela é como os jovens de sucesso da sua geração: sua organização (ou falta dela) é notável assim que se entra no ambiente em que ficou por mais de duas horas seguidas. Parecia flutuar quando o assunto era mais sério e sobre o futuro: ela optou por viver um dia de cada vez. Porque sabe como é, ela acha que pode cair pra trás e nunca mais acordar mas bota fé que as coisas ainda vão melhorar.
Alguns dizem que a vida dela acabou faz tempo, talvez quando ela tenha optado por não fingir sentir coisas que não sentia ou omitir seus sentimentos em prol de uma "vida ordinária".

Pra maioria da galera, ela é doida. Acham bonitinho dizer como ela é doidona, diferentona. Mas sabem que na verdade ela só não segue o padrão e não vive em uma concha. É muito corajoso ser você mesma em um mundo que parece que as pessoas querem ser iguais, pensar igual, enfiar os pensamentos na cabeça dos outros. Ela não, fica de boa, segue o caminho dela e tenta ficar em paz. Quando não dá, solta os cachorros. Mas quem nunca?

Ela gosta das músicas dela também. Nem vem com as suas porque ela já definiu o que quer e o que não quer para embalar os seus dias (mas se insistir um pouco ela acaba até arriscando uma coreografia marota, resquício dos seus tempos de fã de boybands).

Seu corpo esconde muitas histórias e conta outras também. Ela prefere se sentir única do que tentar se enfiar numa calça 4 números menores do que o ideal, mas não condena quem deseja fazer isso. Apenas se sente linda como ela é, o que toda mulher devia sentir.

Tá, ela é arredia também. Só convive com quem gosta, não faz sala para os outros e quando precisa, o papo com ela é reto. E não tem medo de cara ruim, apesar de morrer de preguiça dessas caretas.
Impressionante como ela revira os olhos para absolutamente tudo e ainda consegue ser simpática depois do desprezo com o olhar.

Ela é você, ela é sua amiga, sua mãe, sua irmã, sua menina. Essa mulher tem direitos, essa mulher tem uma vida, tem personalidade, desejos, medos. Essa mulher precisa ser representada como quem ela é, não como ela devia ser. Mulher tem personalidade. Mulher se frustra. Mulher é força também. Pode não ficar carregando sacos de cimento o dia inteiro, mas aguenta muito mais o tranco do que se diz por aí. E cada mulher é única.

Então, aquele abraço para o padrão de delicadeza e elegância da mulher brasileira.
Somos plurais, somos várias, somos muitas, somos nossa cultura, somos nossa região. Somos nosso sotaque, nossos sonhos, nossas vitórias, nossas derrotas.
Mas juntas, somos mais fortes.

*imagem via reprodução

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