Nova Perspectiva

12 de maio de 2016

A solidão corrói


Não é insônia, é saudade. Afirmo pra mim mesma enquanto me forço a não te procurar. Não vale a pena. Pelo menos não mais. Encaro o teto branco sobre a minha cabeça tentando não pensar em nada enquanto observo as rachaduras que o percorrem de um lado ao outro. Era você quem tinha que chamar alguém pra dar uma olhada nisso, mas cê foi embora antes e eu não faço ideia de pra quem ligar. Será que cai? Indago. Eu to caindo já faz mais de um mês. Despencando precipício a baixo em queda livre, ultrapassando o fundo, do fundo, do fundo, do fundo do poço. Eu não sei onde vou parar, nem se quero.

Sento na cama e encaro o espaço vazio ao meu lado. Tudo parece ter ficado maior desde que você foi embora. O quarto, que antes ficava abarrotado com as suas roupas sujas acumulando pelos cantos, parece muito limpo. Já nem lembrava mais do carpete vermelho que você tanto detestava. Não tenho mais os seus sapatos no meu caminho para reclamar enquanto eu tropeço e você ri. Nem seus braços me agarrando pela cintura antes deu ir trabalhar. Faz semanas que eu chego na hora. Meu chefe parece orgulhoso, eu não. Acendo um cigarro. Tá tudo escuro, inclusive eu. Trago-o num ritmo desesperanço enquanto engulo com os olhos o corredor. Ninguém vai passar por ele.

Queria um café. O seu café. E o seu cheiro. E o seu beijo. E que nós fizéssemos amor a noite inteira, mesmo que os vizinhos reclamassem e a gente risse e risse e risse até o mundo explodir em graça. Então eu choro baixinho, inerte, porque de repente tudo o que é seu se tornou intangível. Sinto o pulmão inflar e desinflar. Inflar e desinflar. Inflar e desinflar. Cansado de tanta sujeira. Igual meu coração. Tateio o seu travesseiro em busca de algo que não está mais aqui e só o que eu consigo alcançar é a solidão que se mudou pra dentro de mim e me corrói. Alcanço o maço. Vazio. Droga, era o último. O que eu vou fazer com a vontade de fumar? O que eu vou fazer com a vontade de você?

Minha cabeça gira e gira e gira e gira e eu me pergunto como é que eu me enfiei nisso. Como é que eu permiti que as coisas chegassem nesse ponto. Logo eu, sempre tão acostumada com amores rasos, fui me jogar mar à dentro achando que eu conseguiria nadar em um oceano desse tamanho. Afundei. To afundando. E não tem como voltar atrás. Não tem como subir. E eu não consigo respirar. Mas eu to bem. Juro. É só que às vezes, quando a noite engole o caos e o cigarro acaba, só consigo pensar na gente. Só que passa. Amanhã levanto cedo, lavo o rosto, seco a alma, passo um café e ninguém percebe que por trás da minha maquiagem tem uma olheira gritando o seu nome.

*imagem via reprodução

4 comentários:

  1. caraca Gabriella sensacional , divino !!!

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  2. Texto perfeito!! Simplesmente maravilhoso!❤️

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  3. ''Amanhã levanto cedo, lavo o rosto, seco a alma, passo um café e ninguém percebe que por trás da minha maquiagem tem uma olheira gritando o seu nome.'' <3

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"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar." — Antoine de Saint-Exupéry — Cative-me.